Carlo Ancelotti vai encontrando uma identidade para a Seleção Brasileira durante a fase de grupos da Copa do Mundo (Foro: Rafael Ribeiro/CBF)
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O maior triunfo do Brasil na primeira fase não foi terminar em primeiro. Foi encontrar um time.

Existe uma armadilha que acompanha a Brasil em praticamente toda Copa do Mundo: a euforia precoce.

Basta uma boa estreia para o discurso do “agora vai” dominar o país. Da mesma forma, um tropeço costuma provocar o efeito contrário, como se o sonho do título tivesse acabado antes mesmo de começar. Talvez por isso a campanha da Seleção Brasileira na fase de grupos desta Copa tenha sido tão interessante.

Ela não seguiu o roteiro tradicional.

O empate com Marrocos deixou dúvidas. Um primeiro tempo tenebroso e preocupante, o time parecia espaçado, inseguro e sem mecanismos claros de construção e marcação. Havia qualidade individual, mas faltava algo que costuma decidir torneios curtos: uma identidade coletiva.

E, aliás, talvez tenha sido justamente esse início irregular que fez bem à equipe.

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Em vez de maquiar problemas com uma vitória protocolar, Carlo Ancelotti precisou trabalhar. Ajustou peças, mudou comportamentos e encontrou soluções ao longo da própria competição. O Brasil não chegou pronto à Copa do Mundo. Foi se construindo dentro dela.

A vitória sobre o Haiti mostrou certa evolução, sobretudo na etapa inicial. Embora não tenha sido um primor, o confronto contra a equipe caribenha deixou recados à Ancelotti. A atuação diante da Escócia confirmou que o crescimento era real.

Foto: Site CBF/Divulgação/FIFA

Mais do que os três gols, chamou atenção a maneira como o Brasil controlou o jogo. Pela primeira vez no torneio, a Seleção pareceu confortável sem a bola e perigosa quando a recuperava. Pressionava no momento certo, recuava quando era necessário e acelerava as transições com naturalidade. Não foi apenas uma vitória convincente, mas sim uma atuação madura. Se o adversário estava longe da primeira prateleira e ofereceu ao time canarinho espaço e erros, o time brasileiro fez dele o que se esperava diante disso.

Brasil vai se encontrando na Copa do Mundo

Ancelotti encontrou algo que muitos treinadores passam anos procurando e nem sempre conseguem: um funcionamento. Sua seleção, aliás, lembra cada vez mais o seu Real Madrid: não pelas peças, evidentemente, mas pela cara, pelo estilo de jogo, moldado a cada adversário, feito para Vini Jr brilhar. Um time que sabe se defender e partir em velocidade para encontrar seus homens de frente para definir.

O desenho muda com e sem a posse, os jogadores entendem os espaços, as funções se complementam e o coletivo começa a potencializar os talentos individuais. Vinícius Júnior segue sendo o principal desequilíbrio técnico, mas já não parece carregar sozinho o peso ofensivo. Matheus Cunha vive o melhor momento com a camisa da Seleção. Bruno Guimarães assumiu protagonismo na construção das jogadas. Casemiro parece voltar a ser o equilíbrio do meio-campo.

Foto: Site CBF/Divulgação/FIFA

A lesão de Wesley obrigou adaptações, Danilo respondeu muito bem, Douglas Santos ganhou protagonismo pelo lado esquerdo e até Rayan aproveitou a oportunidade quando Raphinha ficou fora. Em vez de perder força, a equipe, por outro lado, encontrou novas alternativas.

Existe outro detalhe que merece atenção.

Em 2022, a Seleção encantou nas duas primeiras rodadas e chegou ao mata-mata depois de uma derrota para Camarões que deixou uma sensação de queda de rendimento. Agora aconteceu exatamente o contrário. O Brasil começou sob desconfiança e termina a fase de grupos transmitindo confiança.

A Copa do Mundo costuma premiar equipes que sabem evoluir durante a competição, por isso, mais importante do que encantar na estreia é alcançar a fase eliminatória jogando seu melhor futebol até aqui.

Foto: Site CBF/Divulgação/FIFA

Isso não transforma automaticamente a Seleção na favorita ao título, muito pelo contrário. O rival na fase de 16 avos é o traiçoeiro e muito bem organizado Japão e, além disso, ainda há adversários fortíssimos, ajustes a fazer e partidas muito mais difíceis pela frente. Mata-mata não perdoa erros.

Mas, pela primeira vez desde que a bola rolou, existe a impressão de que o Brasil sabe exatamente quem é.

Ess é a notícia mais importante da Copa por enquanto.

Talvez o maior triunfo de Ancelotti até aqui não tenha sido terminar em primeiro lugar, mas sim ter encontrado um time.


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