Zagueiro levou seis tiros na saída de uma boate em Medellín dias depois da eliminação precoce da Colômbia no Mundial de 1994
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Andrés Escobar: o gol contra que acabou em assassinato e entrou para a história das Copas do Mundo

Muitas imagens da história das Copas do Mundo são emblemáticas, mas poucas são tão marcantes quanto a de Andrés Escobar desviando uma bola para a própria rede diante dos Estados Unidos, em 1994.

O lance correu o planeta. Foi exibido incontáveis vezes na televisão, analisado por comentaristas e lamentado por milhões de torcedores colombianos. Ainda hoje, mais de três décadas depois, continua sendo uma das cenas mais icônicas daquele Mundial disputado em solo americano.

Mas a razão para isso vai muito além do futebol.

Dez dias após aquela partida, Escobar seria assassinado em Medellín. Tinha, então, apenas 27 anos. E seu nome deixaria de ser lembrado apenas por ter sido um zagueiro talentoso da seleção colombiana, mas sim porque ele se tornou personagem de uma das histórias mais trágicas e tristes já registradas pelo esporte.

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Zagueiro colombiano Andrés Escobar lamenta gol contra marcado a favor dos Estados Unidos em 1994

A seleção que chegou à Copa cercada de expectativas

A Colômbia desembarcou nos Estados Unidos em 1994 carregando uma responsabilidade incomum.

A geração formada por nomes como Carlos Valderrama, Freddy Rincón, Faustino Asprilla e o próprio Andrés Escobar havia encantado o continente durante as Eliminatórias. Meses antes da Copa, a equipe protagonizara um resultado histórico ao derrotar a Argentina por 5 a 0 em pleno Monumental de Núñez, em Buenos Aires.

Badalada Seleção da Colômbia na Copa do Mundo de 1994

A atuação impressionou tanto que alguns observadores chegaram a apontar os colombianos como candidatos a surpreender no torneio. Era uma expectativa rara para um país que jamais havia alcançado protagonismo em Copas do Mundo.

No meio daquele grupo estava Andrés Escobar.

Zagueiro do Atlético Nacional, ele era reconhecido por características pouco comuns para a posição. Jogava com elegância, evitava entradas violentas e construía as jogadas desde a defesa. Seu estilo, aliás, contrastava com a imagem tradicional do defensor sul-americano dos anos 1980 e 1990.

Por isso, ganhou um apelido que o acompanharia durante a carreira: “El Caballero del Fútbol”.

O lance de Andrés Escobar que marcou a Copa de 1994

Gol contra de Andrés Escobar em Colômbia 0 x 1 Estados Unidos na Copa do Mundo de 1994

A estreia colombiana foi decepcionante. A equipe perdeu para a Romênia por 3 a 1 e chegou pressionada para enfrentar os Estados Unidos na segunda rodada. Uma nova derrota praticamente significaria a eliminação.

No dia 22 de junho, diante de mais de 90 mil torcedores no Rose Bowl, em Pasadena, a partida caminhava equilibrada quando aconteceu o lance que entraria para a história.

Aos 35 minutos do primeiro tempo, John Harkes avançou pela esquerda e cruzou rasteiro para a área. Ao tentar interceptar a bola antes que ela chegasse ao atacante adversário, Andrés Escobar acabou desviando para o próprio gol.

Os Estados Unidos abriram o placar.

A Colômbia ainda lutou para reagir, mas acabou derrotada por 2 a 1. Dias depois, a eliminação, então, foi confirmada.

O gol contra virou manchete em diversos países. Entretanto, dentro do futebol, ninguém imaginava que aquele lance ganharia um significado muito maior.

Afinal, gols contra fazem parte do jogo. Sempre fizeram.

A volta para casa e a trágica madrugada de 2 de julho em Medellín

Após a eliminação, Andrés Escobar decidiu permanecer por alguns dias nos Estados Unidos antes de retornar à Colômbia.

Enquanto isso, o país tentava entender o fracasso de uma seleção que chegara cercada por tantas expectativas.

O próprio jogador tratou o episódio com serenidade.

Em uma coluna de jornal publicada após a queda da equipe, Escobar pediu calma aos torcedores e escreveu sobre a necessidade de seguir em frente. Era uma mensagem de alguém que entendia o futebol como ele realmente é: um esporte sujeito a erros, acertos e, inclusive, imprevistos.

Nada indicava que aqueles dias seriam os últimos de sua vida.

Funeral do zagueiro Andrés Escobar, da Colômbia, assassinado após fazer gol contra na que eliminou a Colômbia da Copa do Mundo de 1994

Na madrugada de 2 de julho de 1994, Andrés Escobar saiu de uma boate em Medellín. No estacionamento do local, uma discussão teve início.

Pouco depois, o zagueiro foi atingido por seis disparos. Levado ao hospital, não resistiu aos ferimentos.

A notícia provocou choque imediato na Colômbia e repercutiu em todo o mundo. Em poucas horas, o assassinato ultrapassou as páginas esportivas e passou a ocupar espaço nos noticiários internacionais.

O futebol havia sido atingido por uma tragédia que parecia impossível de explicar.

O que se sabe sobre o assassinato de Andrés Escobar

As investigações apontaram Humberto Muñoz Castro como autor dos disparos. Funcionário e motorista de pessoas ligadas ao narcotráfico, ele então confessou o crime e acabou condenado pela Justiça colombiana.

Mesmo assim, o caso nunca deixou de gerar debates.

A associação entre o assassinato e o gol contra surgiu quase imediatamente e permanece viva até hoje no imaginário popular. Contudo, o contexto da época ajuda a entender por quê.

Velório do zagueiro Andrés Escobar em 1994

Nos anos 1990, a Colômbia ainda convivia com a influência de organizações criminosas que movimentavam enormes quantias de dinheiro e mantinham relações com diversos setores da sociedade, incluindo o futebol. Além disso, a eliminação precoce da seleção teria provocado perdas financeiras para pessoas envolvidas com apostas.

Embora diferentes investigações tenham buscado esclarecer os fatos ao longo dos anos, muitas perguntas permaneceram sem respostas definitivas.

Por isso, mais de trinta anos depois, a morte de Andrés Escobar continua cercada por zonas cinzentas.

Andrés Escobar e a lembrança que permaneceu

A Copa do Mundo de 1994 terminou com o Brasil campeão.

Romário brilhou nos Estados Unidos. Roberto Baggio viveu o drama do pênalti perdido na final. A Bulgária surpreendeu o mundo. E a Romênia protagonizou uma de suas melhores campanhas. Com o tempo, porém, muitos detalhes daquele torneio foram ficando para trás.

A história de Andrés Escobar não.

O gol contra aconteceu aos 35 minutos do primeiro tempo. Sua morte trágica veio dez dias depois.

Entre um acontecimento e outro existe uma distância enorme, feita de violência, medo, narcotráfico, apostas clandestinas e de uma Colômbia que, naquela época, travava batalhas muito maiores do que as que aconteciam dentro de campo.

Mas o futebol tem memória curta para resultados e longa para símbolos.

Por isso, mais de trinta anos depois, poucos recordam exatamente da campanha da Colômbia naquela Copa.

Mas todos se lembram de Andrés Escobar.


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