Ancelotti escolheu morrer abraçado com Neymar nesta Copa. E esta é uma escolha difícil de compreender.
O Brasil, mais uma vez, está eliminado da Copa do Mundo e a Seleção amarga, agora, seu maior jejum na principal competição do futebol mundial. Não que este colunista acreditasse em um favoritismo canarinho, mas o time de Carlo Ancelotti poderia ter ido mais longe.
O comandante italiano, após a boa apresentação contra o Japão, disse em entrevista coletiva que, quando o time vence, o mérito é dos jogadores, porém quando perde, a responsabilidade é do treinador.
Pois bem: a derrota nas oitavas de final para a Noruega recai muito sobre as escolhas do técnico.
Isso porque, no melhor momento brasileiro no jogo, as substituições pioraram a estrutura tática da Seleção que, a partir daí, se perdeu e viu a Noruega remar às oitavas.
No minuto 67, Ancelotti promoveu as entradas de Danilo Santos e Neymar. E ao acionar o camisa 10 a coisa desandou dentro de campo.

Brasil eliminado: mudança tática culminou com adeus precoce
Com Ney em campo, a formatação tática no ataque – e também na transição sem a bola – foi afetado. A partir de então, Endrick, que em seu primeiro minuto de jogo teve chance clara – foi deslocado para a direita para Neymar jogar por dentro.
Endrick, que entrara na vaga de Matheus Cunha para dar profundidade e explosão no um contra um, começou a se apagar por ser deslocado de posição. O garoto claramente não rende – e não joga – pela direita como rende pelo centro. Ademais, teve de passar a marcar pelo setor quando sem a bola. Função muito bem feita por Rayan pela direita, outro que deixou o campo por opção de Carleto para a equivocada entrada de Neymar. Rayan, aliás, novamente fazia bom jogo nesta Copa, sobretudo defensivamente.
Pela direita, a Noruega achou espaço para levantar a bola na cabeça de Haaland: 1 a 0, atropelando Gabriel Magalhães. Magalhães, diga-se, teve dificuldades para encontrar o principal Viking norueguês na partida, seja nas disputas ao longo do jogo, seja no lance do gol. Pela direita, aliás, a jogada do segundo gol, já com um Brasil desesperado e desarrumado para buscar o empate. Halland recebeu com tranquilidade e fuzilou, impiedoso, no canto de Alisson.
E o Vini Jr?
E entrada de Neymar mexeu também com o posicionamento de Vini Jr, principal jogador brasileiro na Copa do Mundo. O lado esquerdo era todo dele, pela esquerda ele construiu a ótima Copa que fez, por aquele flanco ele se sente à vontade para desempenhar o seu melhor.
Com Neymar caindo por ali, Vini teve que se movimentar para dar espaços ao camisa 10. Um camisa 10 que, infelizmente, chegou aos Estados Unidos somente com o peso do nome que carrega nas cotas, entretanto sem o futebol que o consagrou como um dos melhores de sua geração.
E o 10, com bola pouco fez; sem ela, menos ainda, se não trotar entre noruegueses. O que justificava a alteração? É crucial que o italiano explique suas escolhas.

O lado direito, aquele mesmo que fez Ancelotti tirar coelhos da cartola ao longo da Copa do Mundo, foi o mesmo que, por escolhas do mesmo, fez a Seleção Brasileira sucumbir em mais um Mundial.
Sucumbir diante de uma Noruega que pouco – ou quase nada – fez para incomodar o arqueiro brasileiro até abrir o marcador na reta final, aos 79 minutos de jogo.
Por outro lado, a seleção norueguesa foi a única das cinco adversárias do Brasil que deu aquilo que o time mais queria e buscava dentro das quatro linhas: espaço.
Para além de pênalti perdido por Bruno Guimarães e chance de Endrick
A Seleção, é verdade, perdeu um pênalti muito mal batido por Bruno Guimarães no começo do confronto, mas os mais de 80 minutos restantes eram mais do que suficientes para que balançasse as redes. Perdeu gol com Endrick, um garoto em sua primeira Copa, criou oportunidades e parou em Nyland, em erros de conclusão. Tudo isso entra na conta da eliminação, evidentemente.
Contudo, se não perfeita, a apresentação brasileira não era ruim. A equipe não era pressionada. Mas via, sim, uma Noruega controlar certos momentos do jogo com passes para o lado, sem verticalidade, diante de um meio-campo verde-amarelo que pouco mordeu ou pressionou em momentos-chave. Essa conivência com o toque de bola nórdico também cobrou seu preço para o Brasil ser eliminado.
Mas uma parcela menor comparada a desestruturação tática após a entrada de Neymar. Uma entrada que, diga-se, pouco se justificava à aquela altura. E, se voltarmos um pouco mais no tempo, uma convocação, aliás, que pouco (ou em nada) se justificava naquele dia 18 de maio.
Ancelotti escolheu morrer abraçado com Neymar : Brasil eliminado
Se há um culpado, portanto, este não é Neymar. Porém aquele que o convocou. Aquele que convocou um gênio lesionado que há muito tempo não encontra mais a sua genialidade.
Para além disso, nos acréscimos, a cena patética protagonizada por Neymar com o Nyland colocou ponto final na passagem do “Príncipe da Vila” com a camisa da Seleção Brasileira. Cena, aliás, que diz muito sobre como esse jogador pensa e se comporta: faltou compromisso com a camisa enorme que veste, sobrou ego.
Há quem vê razão nesta e em outras atitudes do craque; este colunista, não.
Um fim de trajetória patético de um gênio com a camisa da Seleção. Um final triste para uma campanha que vinha encorpando na Copa do Mundo. Escolhas, afinal. Assim é feita a vida de cada um de nós.
Ancelotti escolheu morrer abraçado com Neymar nesta Copa. E esta é uma escolha difícil de compreender.
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