Exclusivo: Ele é um dos treinadores mais promissores da África, já tentou contratar Rayan, e alerta: “O Brasil não pode perder sua essência”
O treinador sul-africano Rhulani Mokwena passou as últimas semanas percorrendo centros de treinamento, acompanhando partidas das categorias de base e conversando com profissionais do futebol brasileiro durante sua passagem pelo Brasil e pela Argentina, no período da Copa do Mundo de 2026.
Em entrevista exclusiva ao Vai Pro Gol, o técnico de 39 anos, considerado um dos mais promissores da África, explicou que a viagem teve um objetivo muito maior do que simplesmente observar atletas para futuras contratações.
Anunciado como novo comandante do tradicional Pyramids, do Egito, e dono de uma trajetória de destaque por clubes como Mamelodi Sundowns-AFR, Wydad Casablanca-MAR e Alger-ARG, Mokwena revelou que veio ao país para compreender mais profundamente a cultura brasileira. E entender por que o Brasil continua sendo uma referência mundial na formação de jogadores.
“Trazer jogadores brasileiros é sempre uma possibilidade, pois gosto da habilidade deles com a bola, mas, acima de tudo, da paixão que têm pelo futebol”, disse Mokwena ao Vai Pro Gol. “Estou no Brasil para entender a sociedade, a comunidade, a cultura e o modo de vida. Ver e vivenciar tudo isso me ajuda a compreender melhor a pessoa”, completou.
Além de acompanhar partidas da base, Mokwena visitou centros de treinamento e trocou experiências com treinadores brasileiros. Entre eles Cuca, no Santos, e Fernando Diniz, no Corinthians, debatendo ideias, discutindo metodologias, formação de atletas e modelos de jogo.

Mokwena relembra tentativas de contratar Rayan e também Giovane, ex-Corintihans

Em sua entrevista, Mokwena contou que sua relação com jovens brasileiros não começou agora.
Anos atrás, quando ainda trabalhava no futebol sul-africano, ele revelou que, inclusive, tentou contratar um atacante que hoje já figura entre os principais nomes da nova geração brasileira.
Alguns anos atrás, quando Rayan tinha 16 anos, eu o vi jogar e tentei trazê-lo para a África do Sul; hoje ele está no Bournemouth e disputando a Copa do Mundo.
Na época, Rayan ainda defendia o Vasco e já despontava como uma joia. O atacante, inclusive, esteve entre os titulares da Seleção Brasileira e fez ótima Copa. Outro nome citado pelo treinador foi Giovane, ex-Corinthians e atualmente jogador do Napoli. De acordo com Mokwena, o atacante esteve na mira do Wydad Casablanca, um dos principais clubes de Marrocos e do continente africano.
Na temporada passada, estive aqui com o presidente do Wydad, o Sr. Hicham Ait Mena, e tentamos contratar Giovani como nosso centroavante principal. Hoje, ao voltar aqui, soube que ele está no Napoli — dá para acreditar?

As duas histórias ajudam a explicar por que o treinador decidiu retornar ao Brasil justamente durante a Copa do Mundo: observar quem poderá ser a próxima geração de grandes talentos do país.
Rhulani Mokwena vê mudança no perfil do jogador brasileiro
Apesar de continuar admirando a qualidade técnica nacional, o sul-africano acredita que o futebol brasileiro passa por um momento de transformação. Segundo ele, ainda existe enorme talento, mas alguns elementos históricos começam a desaparecer.
O país talvez esteja produzindo menos jogadores de alta técnica, com aquele ritmo e ginga característicos — e pode haver muitas razões para isso.
Essa percepção, conforme conta, não é exclusiva: “Essa é exatamente a discussão que está ocorrendo entre a maioria dos treinadores; até mesmo os técnicos brasileiros me dizem isso”. Na visão do treinador, porém, o problema não está na falta de talento.
O que nunca pode acontecer com o brasileiro é uma perda da essência do jogo.

O experiente treinador acredita que um dos fatores que ajudam a explicar essa mudança está na dificuldade que os jovens encontram para ganhar espaço no futebol profissional. Rhulani Mokwena ainda atenta ao fato de que muitos clubes brasileiros passaram a recorrer com maior frequência ao mercado internacional.
“Os grandes clubes não dão chances aos jovens, e até mesmo o jogador brasileiro tem dificuldade em lidar com a pressão da torcida”. Ele completa: “Os clubes agora buscam jogadores de outros países latinos, então as oportunidades para os brasileiros atuarem no mais alto nível do futebol nacional diminuíram significativamente.”
Mokwena: o futebol de rua continua sendo a maior escola
Entre todos os temas abordados, talvez nenhum tenha empolgado mais Mokwena do que o futebol de rua.
Para mim, isso é muito importante: crianças jogarem futebol na rua.
Para ele, é nesse ambiente que surgem características impossíveis de serem ensinadas apenas em centros de treinamento. E ajuda a explicar por que o Brasil continuará formando grandes jogadores. Ademais, o treinador descreve o futebol de rua como um ambiente competitivo e imprevisível.
Nenhum treinador consegue ensinar isso melhor do que a rua.
“Marrocos e Argélia ainda mantêm essa cultura, e é possível notar que os jogadores que eles revelam possuem um nível técnico altíssimo.”, aponta. Ambos os países, inclusive, são dois dos principais centros formadores de talentos no Norte da África.
“Também estou aqui para recarregar as energias e voltar a me apaixonar pelo futebol e pela sua pureza.”, confessou. “Ver o futebol de praia tarde da noite e o futebol de rua — com toda a competitividade, os jogadores descalços e a pressão para jogar — me deixa muito feliz.”
Treinador analisa Copa do Mundo e vê desafio para o Brasil
Questionado sobre a campanha brasileira na Copa do Mundo de 2026, Mokwena apontou qual considera ser a principal limitação da Seleção. O treinador concedeu entrevista antes da eliminação brasileira para a Noruega, na fase de oitavas de final, nos Estados Unidos.
Acredito que o maior desafio para o Brasil seja justamente o banco de reservas. Endrick é, no momento, o jogador que realmente traz uma grande contribuição vindo do banco, mas, devido à sua idade, ele não pode ser o único.

No entanto, em relação ao elenco e à sua capacidade de encontrar soluções contra linhas defensivas altas ou blocos baixos — usando dribles e pressão ao redor da área —, esta Seleção Brasileira tem demonstrado bons sinais.
Rhulani Mokwena: Futebol africano vive evolução técnica
Ao comentar a participação das seleções africanas no Mundial, Rhulani Mokwena afirmou que o continente vive um dos momentos mais importantes de sua história recente.
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Com larga experiência em clubes da África, ele afirma que o desenvolvimento das ligas nacionais elevou o nível dos atletas. Das dez seleções africanas, nove avançaram da fase de grupos, ou seja, um aproveitamento histórico de 90%. Marrocos, por exemplo, terminou na quarta colocação na Copa de 2022 e chegou às quartas de final em 2026.
“Acho que o nível do futebol africano deu um grande passo à frente”, avalia. “O Marrocos é provavelmente a melhor seleção africana, com talento dentro e fora de campo; o nível técnico é altíssimo, com um time titular de elite e um banco de reservas forte”.
Brasil e África compartilham a mesma paixão pelo futebol
Ao encerrar a entrevista, Mokwena também destacou as semelhanças entre Brasil e África do Sul: música, criatividade e paixão pelo esporte ajudam a explicar o talento revelado pelos dois países.
Ambos possuem atualmente uma geração vibrante e aberta, com forte influência musical — o que desenvolve o senso de ritmo, uma qualidade importante para jogadores com boa técnica. Considero que existe um nível muito bom tanto no futebol brasileiro quanto no africano.
Confira na íntegra a entrevista de Rhulani Mokwena ao Vai Pro Gol:
– Vai Pro Gol: Mister Mokwena, qual é o objetivo principal desta viagem ao Brasil? É buscar novos talentos ou talvez realizar um intercâmbio com o futebol de base brasileiro? Por favor, fale um pouco sobre isso.
Rhulani Mokwena: Sim, uma parte importante da minha viagem à América do Sul é, naturalmente, observar jogadores e acompanhar jogos das categorias de base brasileiras para tentar descobrir a próxima jovem estrela.
Alguns anos atrás, quando Rayan tinha 16 anos, eu o vi jogar e tentei trazê-lo para a África do Sul; hoje ele está no Bournemouth e disputando a Copa do Mundo.
Na temporada passada, estive aqui com o presidente do Wydad, o Sr. Hicham Ait Mena, e tentamos contratar Giovani como nosso centroavante principal. O contrato dele estava chegando ao fim em dezembro e nós o queríamos; ele talvez tivesse vindo para o Wydad se tivéssemos conseguido contratá-lo sem taxa de transferência. Hoje, ao voltar aqui, soube que ele está no Napoli — dá para acreditar?
Mas venho aqui para entender o nível dos próximos grandes talentos, já que é de onde tradicionalmente surgem a maioria das superestrelas. O país talvez esteja produzindo menos jogadores de alta técnica, com aquele ritmo e ginga característicos — e pode haver muitas razões para isso.
Esta viagem também serve para conversar com treinadores e técnicos e saber o que eles pensam sobre o nível do futebol e do jogador brasileiro. Isso também me ajuda quando trabalho com jogadores brasileiros como Lucas Ribeiro ou Arthur Wenderosky — que, na minha opinião, ainda será um grande talento. Ele é incrivelmente talentoso, tem uma execução técnica apurada e uma leitura tática correta do jogo, aliada à criatividade e à capacidade de expressão em campo. Talvez ele precise recuar para atuar como um camisa 8, ou até mesmo como um 6 ou 6,5, para jogar de uma forma que lhe permita ficar mais com a bola e ditar o ritmo, aproveitando os espaços maiores e as distâncias mais curtas que precisam ser percorridas em alta velocidade. Isso se adequaria melhor ao perfil dele, pois ele tem habilidade de condução e um repertório de passes incrível.

Mas, enfim… essa é realmente parte do motivo, mas também estou aqui para recarregar as energias e voltar a me apaixonar pelo futebol e pela sua pureza. Ver o futebol de praia tarde da noite e o futebol de rua — com toda a competitividade, os jogadores descalços e a pressão para jogar — me deixa muito feliz; ver isso me mostra que o Brasil continuará sendo, de fato, uma das maiores potências do futebol justamente por causa disso.
–Vai Pro Gol: Treinador Mokwena, o futebol de base brasileiro mudou muito nos últimos anos, tornando-se mais físico e tático. Ao assistir às partidas pessoalmente, o que mais lhe chamou a atenção? A essência da criatividade brasileira ainda é o principal diferencial, ou você percebe um estilo de jogo mais “europeizado”?
Rhulani Mokwena: Sim. Essa é exatamente a discussão que está ocorrendo entre a maioria dos treinadores; até mesmo os técnicos brasileiros me dizem isso. Agora, minha próxima pergunta é sempre: por quê? Por que o cenário caminhou nessa direção? Porque, claramente, não é falta de talento ou potencial. Mas, é claro, algo está diferente e seguindo outro rumo, o que é motivo de preocupação.
À medida que o jogo evolui, o jogador africano fica cada vez mais exposto aos métodos do futebol europeu e se adapta, sim, mas mantém a sua “africanidade” no jogo — e é isso que faz do jogador africano aquele que a Europa procura. No entanto, grandes equipes sempre tiveram jogadores muito técnicos em campo, e a maioria deles vinha do Brasil ou da América do Sul… embora as coisas tenham mudado agora, e o jogador francófono com experiência na Europa seja, atualmente, o perfil de elite buscado por muitas equipes europeias.
O que nunca pode acontecer com o brasileiro é uma perda da essência do jogo; é um esporte muito valorizado no país. As crianças jogam futebol desde muito cedo. Elas são expostas ao futebol em idades que permitem que um jovem de 16 anos já comece a brilhar. E muitos profissionais do futebol sentem que esse pode ser o problema: os grandes clubes não dão chances aos jovens, e até mesmo o jogador brasileiro tem dificuldade em lidar com a pressão da torcida. Além disso, os clubes agora buscam jogadores de outros países latinos, então as oportunidades para os brasileiros atuarem no mais alto nível do futebol nacional diminuíram significativamente, e isso também afeta a formação do jogador brasileiro típico.
– Vai Pro Gol: No futebol moderno, o espaço e o tempo para pensar são cada vez mais limitados. Na sua opinião, qual é o maior desafio ao desenvolver um jovem jogador hoje para que ele consiga tomar decisões rápidas sob pressão?
Rhulani Mokwena:
Essa é uma pergunta incrível e me faz voltar ao futebol de rua. Para mim, isso é muito importante: crianças jogarem futebol na rua. É um jogo que engloba tudo. Inclusive a competitividade; perder diante da sua comunidade, com a família e os amigos por perto, é algo muito difícil de lidar para jovens que estão sempre tentando impressionar a garota mais popular do bairro. E, quando você não é escolhido para jogar, luta para melhorar seu jogo, esforça-se para evoluir e provar que merece ser selecionado na próxima vez.
Esse é exatamente o tipo de jogador que atua no mais alto nível do futebol profissional hoje. Esse aspecto mental de resiliência, crescimento e de cobrar a si mesmo primeiro é desenvolvido na rua.
Depois, é claro, em termos técnicos e táticos, falamos de tempo e espaço — dois aspectos também proporcionados pelo ambiente.
A imprevisibilidade da rua — a bola pode voar para o quintal errado, um cachorro ou gato pode atravessar a rua a qualquer momento — impõe um ambiente caótico e imprevisível, semelhante ao de uma partida profissional típica de 11 contra 11. Há também o pavimento, o formato da via, as irregularidades, os pedestres e, então, a bola, o gol, os companheiros de equipe e os adversários; esses são os mesmos pontos de referência de uma partida profissional oficial. Por isso, acredito na maneira única como a rua pode treinar e ensinar você. Quanto mais você joga, melhor você fica — tanto ofensiva quanto defensivamente.
Observe quantos defensores que jogaram futebol de rua ou futsal registram zero desarmes, mas um número elevado de bloqueios e interceptações. Você aprende isso melhor na rua: os defensores não fazem desarmes clássicos lá, mas precisam defender, então buscam formas mais criativas de marcação para não perder o jogo. Nenhum treinador consegue ensinar isso melhor do que a rua. E, naturalmente, como a sociedade atual tem um ritmo acelerado, o jogo de rua hoje é muito mais intenso do que há alguns anos. Isso também gera uma pressão relacionada ao tempo, o que, por sua vez, resulta em menos espaço.
E, quando se tem menos espaço, é preciso encontrar cada vez mais maneiras de achar soluções diferentes rapidamente. E, quando você consegue jogar em espaços reduzidos com menos opções de passe, também consegue fazer o mesmo em um campo maior, com mais espaço e mais opções — já que o número de adversários e companheiros de equipe aumenta.
É por isso que defendo o treinamento em espaços reduzidos, utilizando o rondo ou atividades técnico-táticas nesse tipo de ambiente; acredito que isso permite uma preparação próxima da realidade do jogo em campo grande e dos desafios que ele impõe aos jogadores.
Esse é, na minha opinião, o maior desafio: expor os jovens jogadores a essa prática e incentivá-los a jogar cada vez mais futebol de rua. Marrocos e Argélia ainda mantêm essa cultura, e é possível notar que os jogadores que eles revelam possuem um nível técnico altíssimo na forma como lidam com a bola.
– Vai Pro Gol: Mister, você também visitou a Argentina durante esta viagem à América do Sul. Quais foram as principais diferenças que observou entre o futebol praticado na Argentina e no Brasil?
Rhulani Mokwena: Na verdade, atualmente existem muitas semelhanças, inclusive na cultura. Preciso viajar mais pela Argentina e explorar o cenário do futebol de lá para entender melhor o jogo. Mas, para mim, certamente se destacam a paixão pelo esporte e o respeito pela seleção nacional. Ambos os países nutrem grande respeito e orgulho em relação a Messi.
Sempre me surpreendo quando brasileiros me dizem que o Messi é o melhor jogador, e não o Ronaldo (português). Além disso, ambos os países praticamente param quando a seleção está jogando. É realmente incrível vivenciar isso em ambas as nações.
– O Mamelodi Sundowns ficou conhecido pelo estilo “Shoeshine & Piano” (passes curtos e ritmo fluido). O clube também é historicamente conhecido como “The Brazilians” (Os Brasileiros). Além da coincidência das cores dos uniformes compartilhadas pelo Sundowns e pela Seleção Brasileira, você acha que o estilo de jogo brasileiro inspirou o Sundowns, um dos clubes mais bem-sucedidos da África do Sul?
Rhulani Mokwena: Sim. Com certeza. Isso é algo indiscutível. O trabalho realizado pelos saudosos Screamer Tshabalala, Trot Moloto, Spear Makoba e Harris Chueo é um fato. Está registrado na história e é um fato como eles incorporaram isso à cultura do clube; os torcedores de verdade sentem um orgulho imenso disso. Porque essa é a marca registrada do clube na África do Sul. Todo grande clube tem algo que o torna especial — alguns têm mais do que outros —, mas existem elementos que conferem o status de grande clube.
E o “Shoeshine & Piano” representa isso para o Sundowns. Nenhum time na África possui um estilo de jogo tão bem definido e conectado à cultura e à identidade do clube. É isso também que define os líderes à frente de grandes clubes como Orlando Pirates e Kaizer Chiefs. Todos possuem uma história grandiosa. O Orlando Pirates tem a longevidade, o que se traduz em uma contribuição maior para o futebol sul-africano, mantendo-se como uma grande referência do país no continente. O Kaizer Chiefs tem a torcida e a classe. Geralmente, esse sempre foi o seu maior trunfo; historicamente, atraíram os melhores jogadores e conquistaram o maior número de troféus. Assim, cada um tem sua própria identidade e os fatores que os tornam grandes equipes — incluindo os títulos e o sucesso, tanto dentro quanto fora de campo. É isso que faz deles clubes tão icônicos.

– Você trabalhou em grandes clubes de diferentes culturas futebolísticas africanas (África do Sul, Marrocos, Argélia e Líbia). Como você adapta sua filosofia de jogo — que prioriza a posse de bola e a iniciativa — a ambientes competitivos tão distintos e, muitas vezes, mais físicos?
Rhulani Mokwena: Acredito que o jogo é altamente técnico ou, melhor dizendo, os jogadores são altamente técnicos. Talvez existam muitos fatores que permitam a Marrocos e Argélia continuarem produzindo jogadores com uma qualidade técnica extremamente elevada. E, claro, na África do Sul, essa também é uma de nossas forças: produzir jogadores com habilidades técnicas excepcionais. Mas o que talvez torne o jogo mais físico e direto seja o fato de que, para nós, treinadores, o maior medo atual é perder uma partida. Isso muda a perspectiva do futebol, levando os treinadores a priorizar a defesa e a buscar chegar à área adversária com muito mais rapidez.
É um jogo marcado por muitos duelos e grandes desafios relacionados à compactação e às distâncias entre as linhas. Esses são, portanto, os maiores desafios técnico-táticos que se enfrentam no futebol do Norte da África. Assim, tentamos impor nossos princípios de jogo fundamentais de uma maneira que nos permita coexistir na liga e lidar com esses aspectos importantes da partida.

– Historicamente, o futebol brasileiro e o africano compartilham muita paixão, habilidade técnica e improvisação. O que você acha que os clubes brasileiros poderiam aprender com a recente evolução do futebol de clubes africano, e vice-versa?
Rhulani Mokwena: Acredito que as semelhanças, especialmente entre a África do Sul e o Brasil, transcendem a história, a política e os negócios. O relacionamento é muito bom, e ambos possuem atualmente uma geração vibrante e aberta, com forte influência musical — o que desenvolve o senso de ritmo, uma qualidade importante para jogadores com boa técnica. Considero que existe um nível muito bom tanto no futebol brasileiro quanto no africano — este último, agora, em um patamar ainda mais elevado do que antes, especialmente no que diz respeito aos clubes.
–Existem planos ou alguma possibilidade de levar jovens talentos brasileiros que você está observando como parte deste novo projeto?
Rhulani Mokwena: Trazer jogadores brasileiros é sempre uma possibilidade, pois gosto da habilidade deles com a bola, mas, acima de tudo, da paixão que têm pelo futebol. Os sul-americanos amam o futebol, e isso sempre contagia o restante da equipe. E, para ter sucesso na vida em qualquer área, a paixão é algo extremamente importante. Os sul-americanos sempre trazem isso. O grande desafio é mantê-los felizes, mas, repito, é por isso que estou no Brasil: para entender a sociedade, a comunidade, a cultura e o modo de vida. Ver e vivenciar tudo isso me ajuda a compreender melhor a pessoa. Ajuda-me a gerir melhor o indivíduo, o que considero fundamental na gestão de jogadores.
– Como um treinador jovem e altamente qualificado, com experiência em grandes clubes africanos, a sua presença no Brasil também é motivada por um desejo pessoal de ampliar horizontes? Veremos Rulani Mokwena trabalhando no futebol sul-americano ou europeu no futuro?
Rhulani Mokwena: Não, certamente não; o objetivo desta viagem não é esse. É bom estar aqui; as pessoas são incríveis, muito hospitaleiras e calorosas. Mas, na vida, nunca diga nunca.

– Por fim, em relação à atual Copa do Mundo, como você avalia o desempenho das seleções africanas no torneio? E quanto à Seleção Brasileira? (*Nota da redação: entrevista concedida às vésperas do confronto entre Brasil e Noruega, partida que culminou com a eliminação brasileira no Mundial de 2026).
Rhulani Mokwena: Acho que o nível do futebol africano deu um grande passo à frente. O Dr. Patrice Motsepe e sua equipe de gestão na CAF (Confederação Africana de Futebol) merecem grande reconhecimento, pois é verdade: se você desenvolve os clubes, desenvolve o talento; isso torna o futebol de clubes mais competitivo e aprimora o jogador. Devemos sempre defender que os jogadores africanos tenham oportunidades em clubes africanos para manter essa evolução pela qual a África está passando. O Marrocos é provavelmente a melhor seleção africana, com talento dentro e fora de campo; o nível técnico é altíssimo, com um time titular de elite e um banco de reservas forte. Isso é muito importante em um torneio como este.
Acredito que o maior desafio para o Brasil seja justamente o banco de reservas. Endrick é, no momento, o jogador que realmente traz uma grande contribuição vindo do banco, mas, devido à sua idade, ele não pode ser o único. França, Marrocos, Inglaterra e Espanha têm bancos mais fortes.
A Noruega enfrenta um problema semelhante ao do Brasil: um ótimo time titular e talvez um Oscar Bobb para ajudar a equipe no segundo tempo, mas não sei se isso será suficiente mais adiante no torneio. No entanto, em relação ao elenco e à sua capacidade de encontrar soluções contra linhas defensivas altas ou blocos baixos — usando dribles e pressão ao redor da área —, esta Seleção Brasileira tem demonstrado bons sinais. Só espero que Neymar consiga estar nesse nível quando for mais necessário e que Endrick mantenha a consistência e a motivação até o fim. Acredito que é isso que determinará até onde o Brasil pode chegar.
Dias depois, no entanto, com Neymar em campo, o Brasil perdeu de 2 a 1 para os noruegueses e deu adeus ao sonho do hexa em 2026, amargando, assim, o maior jejum de títulos da história da Seleção Brasileira em Copas do Mundo e a pior campanha desde 1990.

