90 minutos é muito tempo
“90 minutos é muito tempo, preparem-se para uma noite mágica. Convoco nossos torcedores, há muito tempo não peço nada. Do primeiro ao último segundo que não parem de cantar e puxar pelo time. O Palmeiras é a equipe da virada e do amor. Mais do que nunca precisamos de ajuda. Acredito e tenho fé que algo mágico vai acontecer quinta-feira. Não perguntem como e nem quando, mas é o que eu acredito”. O Palmeiras está na final da Copa Libertadores da América.
O futebol — esse fabulista imprevisível — guardou o eco dessas palavras ditas por Abel para o futuro. E foi ele quem respondeu, poucos dias depois, em uma das noites mais grandiosas da história recente do clube. No Allianz Parque, o Palmeiras não jogou uma semifinal de Libertadores — encenou uma epopeia. Por fim, quatro a zero sobre a LDU, o roteiro de virada impossível, uma daquelas noites em que o futebol se tornar literatura viva.
Antes de mais nada, o destino, caprichoso, escolheu o dia certo: exatamente cinco anos após a chegada de Abel Ferreira ao clube. Cinco anos de uma comissão técnica que transformou o Verdão em uma instituição de excelência, além disso, um modo de pensar e competir um uníssono com a essência da Sociedade Esportiva Palmeiras. E, então, na data simbólica desse aniversário, o português comandou a maior remontada da história das semifinais da Libertadores. Nada ali foi acaso. Afinal, tudo tinha as digitais de Abel — da escalação ousada ao último grito de orientação na beira do campo.
Palmeiras na final da Libertadores: os 90 minutos de uma noite mágica
Precisamos falar de Allan. O protagonista improvável da noite. A surpresa na escalação apareceu aberto pela direita e fez o jogo de sua vida. Dribles desconcertantes, passes verticais, ousadia rara. Enquanto alguns ainda tentavam entender a escolha do técnico, ele tratou de transformar dúvida em deleite. A cada jogada, o Allianz respirava junto. Alan foi arte em movimento, bem como o imprevisto que torna o futebol tão irresistível.
Precisamos falar de Andreas. Nem toda genialidade se mede em gols. Andreas foi o metrônomo do meio-campo. Correu, armou, protegeu, girou o jogo como quem rege uma orquestra. Foi a engrenagem silenciosa que manteve o Alviverde em alta rotação quando o tempo e o placar pareciam inimigos.
E Raphael Veiga? Há algo de poético no futebol quando a história se curva ao sentimento. Raphael Veiga é palmeirense desde menino — daqueles que, inclusive, iam ao antigo Palestra Itália com o avô e a família, de camisa verde e olhos brilhando. E foi esse menino, já homem e tantas vezes questionado este ano, que entrou em campo para escrever os capítulos mais emocionantes da noite.
Saiu do banco para ser decisivo com dois gols: quando a bola beijou a rede pela quarta vez, o menino que sonhava em vestir essa camisa correu para a arquibancada como quem volta para casa. Era mais do que um gol.
“Convoco nossos torcedores, há muito tempo não peço nada. Do primeiro ao último segundo que não parem de cantar”. Pois bem, precisamos falar da torcida. Há estádios que são templos, e há noites em que esses templos são vulcões. Em síntese, o Allianz Parque foi um deles. O canto não era só incentivo, portanto — era fé materializada. Quando o time precisava de ar, o estádio respirava por ele. Comunhão rara (mas não para o torcedor palmeirense) em que o torcedor não assiste: ele participa, empurra, transforma, joga junto – e, diga-se, jogou muito!
Nada explica melhor o Palmeiras de Abel do que essa noite de
Finalmente, precisamos falar de Abel Ferreira. Nada explica melhor o Palmeiras de Abel do que essa noite. A coragem de mexer, de reinventar e, igualmente, de não temer o impossível. Piquerez, por dentro, abriu caminhos; Alan, deslocado à direita, desequilibrou; Fuchs, com sua saída de bola limpa, deu o compasso; Sosa titular para tirar o zero do marcador. Veiga, do banco pra glória. Acima de tudo, cada decisão de Abel foi um passo na trilha da virada.
Para além disso, não é coincidência que o Palmeiras tenha feito história no mesmo dia em que completava cinco anos sob o comando de seu treinador. É simbólico. É o tipo de sincronia que o futebol reserva apenas aos que o levam a sério demais — e o amam mais ainda.
Sim, o Palmeiras está na final da Libertadores da América. Mas mais do que isso: o Palmeiras reencontrou sua alma competitiva, sua identidade, seu prazer de jogar bonito e vencer grande. Porque 90 minutos no Allianz Parque é muito tempo — tempo suficiente para o impossível acontecer.
E naquela noite mágica, ele aconteceu.

