Botafogo-SP promove ação de conscientização sobre violência contra a mulher em jogo do Sub-20
Na partida contra o EC São Bernardo, disputada neste sábado (12), pelo Campeonato Paulista Sub-20, o Botafogo-SP promoveu uma ação de conscientização sobre a violência contra a mulher. Antes de a bola rolar, jogadores da equipe e o técnico Ruimar Kunzel cobriram a boca durante um minuto de silêncio e mostraram o número 180 na mão.
A referência é à Central de Atendimento à Mulher, canal nacional de orientação e denúncia de casos de violência. A ação é de autoria da Macfor, agência full service de marketing digital, e autorizada pela Federação Paulista de Futebol (FPF). O gesto, que passou a ser punido no futebol brasileiro, foi usado para representar o silêncio que ainda cerca muitos casos de violência doméstica.
A gente acredita muito no futebol como um poder de transformação social e no papel fundamental que ele tem na sociedade para promover essa transformação. Por isso, buscamos nos engajar e acreditamos muito na voz do futebol nesse contexto. É o segundo ano consecutivo que a gente abraça esse debate e chama a atenção para a discussão sobre a violência contra a mulher.
Inclusive, os próprios jogadores do Botafogo-SP também participaram da mensagem exibida durante a transmissão: “Hoje a gente entrou em campo com o 180 nas mãos para mostrar que, contra a violência, não dá para ficar em silêncio, afirmou o lateral-esquerdo Henrique Teles.” Na sequência, Adriano Vasconcelos, goleiro e capitão da equipe, completou: “Se você precisa de ajuda ou conhece alguém que precise, ligue 180.”
Por fim, ainda no elenco botafoguense, o técnico Ruimar Kunzel também reforçou o significado da ação e a divulgação do canal de atendimento.
“Hoje nós colocamos na nossa mão o número 180 para dar voz a uma causa muito importante, que não pode ser ignorada. Se você sofre violência ou conhece alguém nessa situação, não se cale. Denuncie. Ligue 180”, lembrou o treinador.
Dados alarmantes de violência contra a mulher no Brasil
A escolha do Botafogo-SP para a ação tem relação direta com dados do estudo Futebol e Violência contra a Mulher, divulgado em agosto de 2026 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. De acordo com o levantamento, os registros de lesão corporal dolosa contra mulheres aumentam 28,8% nos dias de jogos analisados.
“Ter dados que comprovam o aumento dos casos de violência contra a mulher durante e após os jogos mostra o quanto ainda precisamos olhar para essa situação, trazer esse debate e nos envolver como clube e como futebol, usando esse potencial que temos de agir na sociedade”, completa Laura.
Para Fabrício Macias, VP de Marketing e cofundador da Macfor, realizar a ação em uma partida masculina também é uma forma de incluir os homens em uma discussão que não pode ficar restrita às mulheres.
“Precisamos colocar os homens nessa conversa. A violência contra a mulher não pode ser discutida apenas pelas mulheres. Homens também precisam reconhecer situações de violência, entender que não podem se omitir e fazer parte do enfrentamento ao problema. O futebol fala diretamente com um público masculino muito amplo, e usar esse espaço para provocar essa reflexão é parte do sentido da ação”, afirma Fabrício.
Além da alta de 28,8% nos registros de lesão corporal dolosa, o estudo aponta crescimento de 27,4% nos registros de ameaça. Além disso, quando consideradas especificamente as lesões ocorridas dentro das residências, o aumento estimado chega a 35,1%.
O levantamento analisou 308.315 registros policiais realizados entre 2023 e 2025 em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre. Entre mulheres de 15 a 29 anos, os registros de ameaça e de lesão corporal dolosa aumentam 44,4% nos dias de partidas considerados pela pesquisa.
O estudo, porém, não afirma que o futebol seja a causa da violência doméstica. A análise considera partidas da Série A do Campeonato Brasileiro, da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana e não teve como objeto competições de base. Os pesquisadores identificaram uma associação entre os dias dos jogos estudados e o crescimento das ocorrências.
Um gesto, dois significados
Então, na ação do Botafogo-SP de conscientização sobre a violência contra a mulher, o mesmo gesto acabou usado com outro significado. Jogadores e Ruimar Kunzel cobriram a boca enquanto mostravam o número 180 na mão. A imagem relacionou o silêncio representado pelo gesto aos casos de violência doméstica que as vítimas ainda deixam de denunciar, enquanto o 180 indicou onde buscar orientação ou fazer uma denúncia.
De acordo com Fabrício, a ideia surgiu a partir dos dados do estudo e da busca por um elemento do próprio futebol que pudesse traduzir a mensagem.
“Quando vimos os dados sobre o crescimento da violência contra mulheres em dias de jogos, entendemos que o próprio futebol poderia ajudar a colocar esse assunto em discussão. A partir daí, buscamos dentro do esporte uma imagem que tivesse relação direta com a mensagem. Cobrir a boca passou a ter um significado muito específico em campo. Na ação, esse mesmo gesto chama atenção para o silêncio que ainda cerca muitos casos de violência contra a mulher”, completa.
Disque 180
Mulheres em situação de violência ou pessoas que tenham conhecimento de casos podem procurar orientação e fazer denúncias pela Central de Atendimento à Mulher, no Ligue 180. Em situações de emergência, a Polícia Militar deve ser acionada pelo 190.

