Athletico e Bahia: o que explica a eficiência da dupla no G-4
Athletico e Bahia ocupam o G-4 do Campeonato Brasileiro a 11 rodadas do fim, ambos com 46 pontos. O cenário chama atenção não apenas pela posição na tabela, mas pelo caminho percorrido por dois clubes que, cada um à sua maneira, encontraram formas de competir com equipes de receitas e folhas salariais maiores. O Furacão é terceiro, com 13 vitórias, sete empates e sete derrotas. O Tricolor Baiano aparece em quarto, com 12 vitórias, dez empates e cinco derrotas.
Athletico x Bahia se enfrentam neste domingo (20), às 19h30, na Arena da Baixada, em Coritiba, pela 28ª rodada da Série A.
A explicação, porém, não cabe em uma única palavra como “SAF” ou “scouting”. Os projetos são diferentes. O Bahia pertence majoritariamente ao Grupo City desde 2023 e trabalha integrado a uma rede global de análise e recrutamento. O Athletico, por outro lado, mantém uma estrutura associativa e construiu ao longo dos anos uma cultura própria de gestão, infraestrutura e formação de jogadores.
Ainda assim, existe um ponto de encontro: os dois clubes chegaram ao topo da tabela sem precisar reproduzir a lógica de contratação dos gigantes que disputam as primeiras posições com eles.

Quanto custa cada ponto de Athletico e Bahia?

Uma forma de dimensionar a campanha de Athletico e Bahia é colocar os 46 pontos conquistados pelos dois ao lado do custo estimado de seus departamentos de futebol.
Para o Athletico, a estimativa é de aproximadamente R$ 11 milhões por mês, o equivalente a R$ 132 milhões por ano. Já o Bahia trabalha em uma escala maior: o custo mensal estimado do futebol está na casa dos R$ 25 milhões, ou cerca de R$ 300 milhões em 12 meses. A ordem de grandeza é compatível com os dados mais recentes publicados pelos próprios clubes: em 2024, o Athletico registrou R$ 136 milhões na folha do futebol, enquanto o Bahia apresentou R$ 294 milhões.
Com ambos somando 46 pontos após 27 rodadas, a conta simples coloca o Athletico em aproximadamente R$ 2,87 milhões de custo anual estimado por ponto conquistado. No caso do Bahia, são cerca de R$ 6,52 milhões por ponto.
A comparação ganha outra dimensão quando entram os dois clubes que lideram o campeonato. As estimativas de mercado apontam, por exemplo, para um custo anual de aproximadamente R$ 600 milhões no Flamengo e R$ 504 milhões no Palmeiras.
“Hoje, o Bahia tem a 14ª receita da Série A e a 12ª folha da Série A. Estou usando como base os números de 2025. Naturalmente, o Athletico Paranaense volta para a Série A e isso pode mudar essa escala. Temos a 14ª receita, temos a 12ª folha e estamos há 59 rodadas no G8. Então, acho que isso mostra que estamos performando acima da receita do clube, estamos performando acima da folha do clube”, pontuou Cadu Santoro, executivo do Bahia, em entrevista na última semana.
O Athletico e a cultura de fazer diferente
O caso do Athletico é particularmente interessante porque não depende de uma transformação recente para explicar a atual campanha.
O clube mantém estrutura associativa e apresenta como parte de sua estratégia a busca por equilíbrio econômico, inovação, profissionalização e desenvolvimento de atletas. A própria instituição define, em sua política de gestão, objetivos relacionados ao equilíbrio financeiro, planejamento estratégico e aperfeiçoamento profissional.
A formação também continua ocupando espaço relevante no projeto.
Em 2026, seis jogadores formados no CT do Caju tiveram a primeira oportunidade no Campeonato Brasileiro. Entre eles estão Arthur Dias (zagueiro que, inclusive, está convocado por Carlo Ancelotti para defender a Seleção Brasileira na super Data FIFA), Léo Derik, Claudinho, Riquelme, Chiqueti e Bruninho, vendido ao Shakhtar em abril por 12 milhões de euros.
A estrutura da base, aliás, passou por uma mudança importante neste ano. O argentino Jorge Raffo, profissional com passagens por Boca Juniors, Barcelona, Elche, Shakhtar Donetsk e Grupo City, assumiu a direção das categorias de formação e iniciou uma revisão metodológica no CT do Caju.
“Precisamos dar um salto de qualidade, para que todo o clube esteja focado que a formação do Athletico, por meio da visão de seu presidente, que a intenção é instalar a marca do Athletico através da formação de grandes jogadores. Construir e transformar a base do Athletico em uma das mais importantes do Brasil, primeiramente, e depois levar esse talento ao mundo”, declarou Raffo, em entrevista para a Rede Furacão, quando de sua chegada ao clube.
No profissional, a mesma lógica aparece no comportamento durante a janela. Ao definir os reforços para o segundo semestre, o Athletico estabeleceu necessidades específicas — dois zagueiros, um lateral-direito, um ponta e um centroavante — e Odair Hellmann falou em movimentos “pontuais” e “bem estudados”.
Não é a ideia de contratar muito, mas sim a inteligência empregada na busca pela assertividade e custo-benefício. Caso de Kevin Viveros, por exemplo: maior contratação da história do clube R$ 27,5 milhões (5 milhões de dólares), a aquisição do colombiano se justifica por si só – ele é o artilheiro do Brasileirão, com 18 gols.

O Bahia transformou o scouting em processo
No Bahia, a lógica é mais explícita e está diretamente ligada ao modelo do Grupo City.
O departamento de scouting trabalha em três etapas: planejamento do elenco, observação e identificação de jogadores e elaboração dos relatórios que subsidiam a decisão final. O processo combina análise técnico-tática, dados, vídeos, observação presencial e informações da rede internacional do City Football Group.
Essa estrutura ajuda a entender por que o mercado do Bahia não é necessariamente baseado em quantidade.
Em 2026, o clube contratou oito jogadores para o elenco principal, o menor número desde a chegada do Grupo City. O investimento também foi o menor do período: aproximadamente R$ 80 milhões, contra R$ 200 milhões em 2025, R$ 120 milhões em 2024 e cerca de R$ 90 milhões em 2023.
A montagem foi seletiva. Alejo Véliz, por exemplo, custou cerca de R$ 56 milhões e chegou como uma contratação de maior impacto. Outros movimentos tiveram características diferentes, como Marco Moreno, Guido Herrera e o empréstimo de Lautaro López, atleta adquirido anteriormente pelo próprio Grupo City.

A diretriz foi explicada pelo diretor de futebol Cadu Santoro: jovens com possibilidade de valorização e jogadores experientes que possam chegar em condições de mercado mais favoráveis. O dirigente também deixou claro que o Bahia ainda não considera o momento adequado para pagar valores muito altos exclusivamente pelo desempenho esportivo de um jogador.
O resultado aparece na continuidade, não apenas nas contratações
Há outro elemento menos visível quando se olha apenas para a janela: a continuidade.
Na vitória sobre o Remo que colocou o Bahia novamente no G-4, cinco titulares haviam sido contratados ainda em 2023, primeiro ano do Grupo City no clube: Marcos Victor, David Duarte, Kanu, Luciano Juba e Nicolás Acevedo. Ademir, que também chegou naquele período, entrou durante a partida.
A manutenção de jogadores importantes reduz a necessidade de reconstruir o elenco a cada temporada. Além disso, permite que contratações mais recentes sejam incorporadas a uma estrutura que já possui referências internas.
O próprio Cadu Santoro destacou que o Bahia trabalha há três temporadas com uma linha de montagem de elenco e busca equilibrar jogadores mais experientes com opções jovens, inclusive vindas da base. De acordo com o dirigente, a sustentabilidade do projeto depende justamente desse equilíbrio.
“Então, hoje estamos, de maneira regular, vamos colocar assim, praticamente três temporadas em um grupo de G8 no Brasileiro. Acho que essa é uma parte importante que conseguimos fazer com o clube nesses três anos”, disse Santoro.
A força dos dois aparece longe dos confrontos diretos
Existe, porém, um dado que reforça ainda mais o equilíbrio entre Athletico e Bahia na campanha do Brasileirão 2026. Os dois clubes não apenas ocupam o G-4 com os mesmos 46 pontos: também apresentam exatamente o mesmo aproveitamento nos confrontos contra os demais integrantes do atual G-6.
Até aqui, cada equipe disputou seis partidas contra adversários que também estão entre os seis primeiros colocados. O recorte considera Flamengo, Palmeiras, Fluminense, Cruzeiro e o confronto direto entre Athletico e Bahia. Em 18 pontos possíveis, os dois conquistaram cinco, o que representa 27,8% de aproveitamento.
O Furacão empatou com os cariocas, ambos em Curitiba, e perdeu para o paulista fora de casa. Já contra a Raposa, vitória em casa e derrota em BH. Contra o próprio Bahia, no primeiro turno, derrota por 3 a 0 em Salvador.
O Esquadrão de Aço, por sue vez, perdeu para Flamengo, Palmeiras e Cruzeiro, enquanto empatou duas vezes com o Fluminense e venceu o Athletico.
O equilíbrio não se limita, portanto, à pontuação geral. Após 27 rodadas, os dois clubes têm 46 pontos, com o Athletico em terceiro lugar e o Bahia em quarto. O Furacão tem 13 vitórias, sete empates e sete derrotas, enquanto o Tricolor soma 12 vitórias, dez empates e cinco derrotas.
Agora, Athletico e Bahia se enfrentam neste domingo (20), na Arena da Baixada, pela 28ª rodada. O jogo pode alterar a ordem entre terceiro e quarto colocados.
Por isso, os números sugerem que a eficiência de ambos não está baseada em dominar os confrontos contra os clubes mais ricos da tabela. Ela aparece, principalmente, na capacidade de acumular pontos diante do restante da competição e permanecer em uma faixa de classificação que exige regularidade durante 38 rodadas.
Athletico e Bahia chegam ao confronto direto em momentos distintos na temporada

A vitória por 2 a 1 sobre o Remo, na 27ª rodada, colocou o Bahia novamente no G-4, com 46 pontos. Foi a quarta vitória consecutiva, coroando o melhor momento da equipe de Rogério Ceni na temporada. Aliás, o Tricolor também soma 16 pontos nas oito partidas do returno, com quatro vitórias e quatro empates. É a segunda melhor campanha do returno, atrás apenas do Flamengo.
Por outro lado, o Athletico chega ao confronto precisando reagir. O Furacão venceu apenas uma das últimas cinco partidas e está há três rodadas sem triunfar. Além disso, tem a sexta melhor campanha do segundo turno e chega ao duelo direto pressionado a reencontrar o caminho das vitórias.
Enquanto Flamengo e Palmeiras lideram o campeonato com as duas maiores folhas salariais, Athletico e Bahia chegam à reta decisiva ocupando o mesmo G-4 — com modelos diferentes, investimentos de escalas distintas e um confronto direto para definir quem seguirá na frente depois da 28ª rodada.

