Gigantes da Série A defendem patrocínios de bets em audiência no STF; veja como cada clube se posicionou
A possibilidade da manutenção da proibição das casas de apostas esportivas no Brasil mobilizou representantes de seis clubes de Série A (Flamengo, Fluminense, Botafogo, Cruzeiro, São Paulo e Corinthians) em uma audiência no Supremo Tribunal Federal (STF), na terça-feira (3). Durante o encontro, os clubes se colocaram clubes contra proibição das bets e defenderam a manutenção dos contratos de patrocínio com empresas do setor. Além disso, apresentaram argumentos sobre os impactos que uma eventual interrupção das receitas poderia provocar no futebol brasileiro.
A audiência foi convocada pelo ministro Luiz Fux para discutir os efeitos das apostas online. Enquanto o governo federal defendeu a proibição, com a alegação de danos à saúde pública, à segurança e ao endividamento das famílias, os clubes concentraram suas manifestações nas consequências econômicas da medida.
Embora tenham apresentado justificativas diferentes, os representantes concordaram em um ponto: a interrupção dos contratos poderia comprometer o planejamento financeiro das instituições e atingir áreas que vão além do futebol profissional masculino.
Enfática, dupla Fla-Flu defende volta das bets : veja as manifestações
Representado pelo vice-presidente Flávio de Araújo Willeman, o Flamengo destacou o peso dos patrocínios de casas de apostas em seu orçamento e foi um dos clubes mais enfáticos contra a proibição das bets. De acordo com o dirigente do Rubro-Negro, uma eventual perda dessas receitas poderia comprometer aproximadamente R$ 430 milhões anuais relacionados ao futebol e ao esporte, além de colocar em risco postos de trabalho.
“O Flamengo possui mais de 1.200 empregados que poderão ser comprometidos com a queda de aproximadamente 430 milhões de reais de receitas anuais com o futebol e com o esporte”, disse o vice-presidente rubro-negro.
O Fluminense, por sua vez, levou a discussão para o mercado de trabalho. O presidente Mattheus Montenegro reconheceu os problemas sociais associados às bets, mas argumentou que o futebol também poderia enfrentar consequências importantes com a interrupção dos contratos.
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Ao defender a necessidade de considerar os dois lados da discussão, o dirigente do Tricolor das Laranjeiras, contudo, foi polêmico:
“Um ponto que me chamou muita atenção é que eu ouvi muito se falar sobre drama, o drama das famílias, o drama do endividamento. E isso é verdade, o Fluminense não nega isso. Só que também existe um drama do desemprego. O que os clubes vão fazer se a receita acabar? O drama de uma família endividada não pode ser maior do que o drama de uma família que vai ter que sofrer os efeitos do desemprego, que é o que vai acontecer na cadeia do futebol”
Dentre os clubes que compareceram na audiência no STF, Fla e Flu foram os clubes mais enfáticos contra proibição das bets.
Botafogo e Cruzeiro citam impacto nas categorias de base e no futebol feminino; confira argumentos
No caso do Botafogo, a argumentação passou pelo alcance dos investimentos feitos com recursos de patrocínio. O advogado Bichara Abidão Neton destacou que a receita proveniente de uma casa de apostas não beneficiava apenas a equipe profissional masculina, mas também ajudava a financiar as categorias de base e o futebol feminino.
Além disso, durante a manifestação, o advogado do Glorioso ressaltou que o contrato representava o “maior da história do clube”.
“Esse patrocínio era o maior da história do clube nos seus mais de 100 anos. Era uma receita, não só a principal receita comercial do clube, que ajudava a fomentar o futebol masculino, mas não se pode deixar de observar que é justamente esse tipo de receita que fomenta também as categorias de base e o futebol feminino do clube. O doutor Flávio Willeman fez lembrar muito bem que nós estamos já num ciclo olímpico para as Olimpíadas de Los Angeles, mas é importante lembrar também que o Brasil sediará no ano que vem a Copa do Mundo Feminina. Naturalmente, é uma conclusão muito lógica que se chega, que se ao diminuir a receita da categoria, a receita do clube como um todo, as categorias de base e o futebol feminino vão ser os primeiros a sofrer essa perda de receita”, disse o representante do Botafogo.
O Cruzeiro seguiu uma linha semelhante. Representado por José Francisco Cimino Manssur, a Raposa apresentou o peso do contrato de patrocínio em sua estrutura financeira. Além disso, relacionou os valores recebidos à manutenção de despesas com atletas e funcionários.
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De acordo com o representante, o acordo correspondia a “quatro ou cinco folhas de pagamento”. Além do mais, assim como o colega botafoguense, Manssur também utilizou o futebol feminino como exemplo.
“Hoje, o Cruzeiro está recuperado, disputando as grandes competições. E o contrato de patrocínio feito com a maior empresa de apostas do mundo era responsável por algo como quatro ou cinco folhas de pagamento dos atletas, dos funcionários. Mais importante, ministro [Luiz] Fux, o Cruzeiro, no último domingo, se sagrou campeão da Libertadores da América Feminina. Faz um trabalho de fomento do futebol feminino, que é algo muito importante e que necessita prioritariamente das receitas advindas do patrocínio das empresas de apostas, que vão ser perdidas pela impossibilidade de cumprimento do contrato a partir da edição da medida provisória”, apontou o representante cruzeirense.
São Paulo aponta contrato até 2030; Corinthians pede transição
Já o São Paulo, por meio de Danielle Maiolini Mendes, apresentou números sobre a participação da publicidade ligada ao segmento nas receitas do clube. De janeiro a setembro de 2026, essas fontes somaram aproximadamente R$ 101 milhões, o equivalente a cerca de 30% da receita total no período, segundo os dados apresentados pela representante do Tricolor na audiência.
“O São Paulo, de boa fé, celebrou um contrato longevo com uma empresa autorizada pela União e sob as regras que a própria União estabeleceu. Especialmente no nosso caso, a ruptura da segurança jurídica tem efeitos ainda mais drásticos. O São Paulo conta com o contrato de patrocínio mais longo do Campeonato Brasileiro da Série A, com vigência até 2030. E também destes valores depende um planejamento que vai muito além da temporada de 2026 e do custeio do futebol masculino profissional. Eles custeiam as categorias de base, essas que especificamente oportunizam que diversas famílias estruturem também as suas vidas por meio do esporte, assim como o futebol feminino, as Soberanas, que são as atuais campeãs do Campeonato Brasileiro de 2026”, argumentou.
Já o Corinthians defendeu que, antes de qualquer proibição definitiva, exista um período de adaptação para os clubes. O representante do Timão argumentou que a interrupção imediata dos contratos poderia comprometer o pagamento de salários e os compromissos financeiros assumidos pelas instituições.
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A manifestação corintiana também destacou a importância dos recursos para a manutenção das diferentes categorias do clube, especialmente o futebol feminino.
“Que tenha que ocorrer um período de transição, uma adequação. O que não pode é, de um momento para o outro, isso ser cerceado do clube de futebol. O Sport Club Corinthians Paulista é um clube de inclusão social. O futebol feminino, que foi dito aqui, o Corinthians, em 10 anos, foi 22 vezes campeão. Essa verba, independente da empresa, vai fazer falta de uma forma que coloque em risco todas as categorias do clube. Foram feitos diversos acordos, inclusive com a União, de pagamentos que agora ficaram comprometidos pela falta de orçamento. Nós temos, além disso, o principal direito do trabalhador, que o jogador de futebol é um trabalhador, o salário desses trabalhadores, que não basta você falar, ‘olha, vamos fazer a rescisão deste trabalhador e vamos indenizá-lo’. A indenização do trabalhador é o contrato todo. Então, nós fizemos um contrato de 60 meses, ele trabalhou um mês, ele vai receber 59 de indenização. Então, é muito desproporcional”.

