Único brasileiro no futebol de Porto Rico conta como é jogar na terra de Bad Bunny
O show de Bad Bunny no Super Bowl — histórico pela dimensão cultural e pela repercussão mundial — voltou os olhos do planeta para Porto Rico. Pouco depois, a passagem do artista pelo Brasil ampliou ainda mais o interesse do público brasileiro pela ilha caribenha, sua cultura e sua identidade. Foi nesse contexto de curiosidade que surgiu uma pergunta pouco óbvia: como é o futebol em Porto Rico? A resposta, quem conta em detalhes, é Victor Chayo, lateral-direito de 21 anos e atualmente o único brasileiro atuando profissionalmente no país — uma trajetória marcada por perseverança e desafios silenciosos.
Entre mudanças de continente, perrengues na Europa e sonhos que atravessam fronteiras, o jogador revela como é viver do futebol em uma terra onde o seu esporte ainda luta por espaço, enquanto a música domina corações.
A trajetória de Chayo mistura Brasil, Argentina, Estados Unidos, Espanha e Caribe. Ao mesmo tempo, reflete uma geração de atletas que constrói carreira longe dos caminhos tradicionais do futebol brasileiro. Em sua segunda temporada por lá, hoje ele defende o EF Taurinos de Cayey, após atuar pelo Ponce FC, e vive uma realidade curiosa: jogar profissionalmente em um país apaixonado por esporte — mas não exatamente pelo futebol.
Da diversão de infância ao sonho profissional
Nascido em São Paulo, Victor não cresceu dentro do estereótipo do menino que já se via astro do futebol. Pelo contrário: o início foi leve, quase casual.
Nasci em São Paulo, me criei e morei lá até os 12 anos. Eu comecei a jogar futebol desde muito pequeno como uma forma de me divertir. Acredito que meus pais me colocaram em uma escolinha simplesmente para que eu fizesse exercício, socializasse com outros meninos da minha idade e, o mais importante, para que eu me divertisse.
A competitividade, contudo, surgiu depois — e de forma curiosa. Não foi um ídolo ou um time do coração que o motivou, mas o recreio da escola.
Eu jogo futebol desde que eu tenho consciência, sempre foi puramente por diversão. Eu nem sonhava em ser jogador profissional quando eu era pequeno, era realmente só diversão. Essa busca de querer melhorar veio com uns 7 anos de idade, porque eu lembro que meus amigos na escola eram melhores que eu, e eu queria poder jogar com eles no recreio. Treinava muito em casa. Depois disso, melhorei rápido demais e no grupo dos meus amigos eu já era o melhor jogador.

Essa vontade de continuar melhorando nunca foi embora. Com 8 anos que eu comecei a querer ir para um ambiente mais competitivo e minha mãe me convenceu a ir na minha primeira peneira. Com mais ou menos 10 anos, eu decidi que queria e seria um jogador profissional. Eu sempre fui muito competitivo.
Aos poucos, a brincadeira virou objetivo. A disciplina veio também da mãe, atleta de alto rendimento.
Minha mãe era tri-atleta e maratonista. Às vezes eu saia do treino de futebol e ia direto para o treino de natação. Isso ajudou muito minha capacidade aeróbica.

Brasil e Argentina: duas raízes, uma carreira
A mudança para Buenos Aires marcou a primeira grande transformação. Após o divórcio dos pais, Victor passou a viver cercado pela cultura argentina — e pelo futebol mais competitivo. Na base do River Plate, então, viveu experiências decisivas, incluindo torneios internacionais e a descoberta definitiva da posição em que atua hoje.
Eu me mudei para a Argentina porque meus pais se separaram e minha mãe nos levou para Buenos Aires, onde morava todo o lado familiar dela. Viajei com o River Plate para disputar um torneio na Colômbia e ficamos em segundo lugar. Essa foi uma das melhores experiências que eu lembro. Também nesse torneio foi onde eu joguei pela primeira vez de lateral-direito, porque o titular se machucou.

A experiência também ajudou a moldar a sua identidade. Com origens argentinas, ele optou também pela cidadania do país vizinho — decisão prática para o futebol, mas também emocional. No entanto, as raízes brasileiras seguem muito vivas no coração (e na vida) de Chayo.
Eu realmente me sinto metade brasileiro e metade argentino. Não dá pra escolher só um. Eu nasci e morei grande parte da minha vida no Brasil. Mas toda a minha família é argentina, então eu também cresci com essa cultura. Quando voltei para a Argentina, para facilitar minha contratação, eu escolhi fazer a cidadania. Apesar de eu ter feito o processo para facilitar no futebol, também fiz por para ter as duas nacionalidades legalmente, porque eu já me sentia parte argentino também.
Mas e quando o assunto é o clube do coração?
No Brasil eu torço pro São Paulo, mas tenho que admitir que nunca fui de assistir aos jogos e notícias. Na Argentina, o River Plate. E, sim, acompanho mais o River, já que como estive no clube quase todos os dias, aquilo começou a virar uma segunda casa para mim, e passei a me sentir identificado com clube.
E como ficaria o coração numa eventual final de Copa do Mundo entre Brasil e Argentina? Sem ficar em cima do muro, a resposta veio sem diplomacia, porém com bons argumentos:
Essa é difícil! Tenho que admitir que ultimamente eu estou acompanhando mais a Seleção Argentina, já que eu sinto que ela representa bem o país. Sinto que a Seleção Brasileira perdeu um pouco a identidade nos últimos anos e não representa mais o jogo bonito, parece mais uma seleção europeia. Dito isso, Argentina.
Espanha: o sonho europeu e a realidade pouco vista
Na pandemia eu fui morar nos Estados Unidos porque minha mãe tinha se mudado para lá um tempo antes. Então, eu comecei a jogar a liga UPSL, que na época era a terceira divisão. E considerado semiprofissional. O time onde eu jogava se chama Ives Estates Thunder, que naquele momento tinha montado um time de jogadores jovens para disputar aquela divisão. Quando eu jogava nos Estados Unidos, por meio um empresário eu tive a oportunidade de ir para o Leganés, aos 17 anos.
Como milhares de jovens sul-americanos, Chayo também enxergava a Europa como o grande salto da carreira. A oportunidade surgiu antes mesmo de completar a maioridade, quando desembarcou na base do CD Leganés, na Espanha. No imaginário de muitos atletas, o futebol europeu representa organização perfeita, estabilidade e evolução garantida. A realidade, porém, foi bem diferente.
Longe da família, vivendo em alojamentos improvisados e sob intermediação de um empresário, o jovem encontrou um ambiente difícil.
Estava sozinho lá, não conhecia nada e só me deram um cartão para o transporte público como nome e foto de outra pessoa.
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A rotina era pesada: longos deslocamentos, alimentação insuficiente e moradia precária.
Estava numa casa com muitos jogadores que jogavam em diferentes times de lá. Eu estava no terceiro andar daquela casa escura com quatro outras pessoas no quarto. A comida que nos davam de almoço e jantar era pouca, ruim, e não era saudável. Posso falar que sentia fome o tempo inteiro. Tudo isso era organizado por esse empresário que tinha algum tipo de parceria com o clube e alguns outros times. Todos os dias o treino era só dois toques, eu lembro que tinha um jogador muito bom que driblou quase todo o time e o técnico quase expulsou ele do treino por fazer mais de dois toques na bola.
O episódio vivido por Victor, infelizmente, é mais comum do que se imagina e expõe uma faceta menos romantizada do caminho europeu. Além disso, quando subitamente surgiram cobranças financeiras inesperadas por parte do empresário responsável pela intermediação, a decisão foi sair da Espanha e recomeçar.
Como se tudo isso não fosse suficiente para ir embora, depois de um tempo o empresário falou que eu tinha que pagar um dinheiro mensal pra ele. Lógico que fui embora.
Futebol de Porto Rico: uma oportunidade inesperada

A chegada ao futebol porto-riquenho aconteceu quase por acaso e de forma repentina. Depois de uma rápida passagem pelo Defensores Unidos, da Série C da Argentina, o lateral-direito estava sem clube e mantendo a forma em um centro de formação contínua para jovens jogadores de futebol. Este centro, aliás, tem como sócio Leandro Gioda, ex-zagueiro com passagens por clubes como Lanús e Independiente, e, segundo Chayo conta, com contatos em outras no mundo do futebol. Foi aí que veio o convite: toparia jogar em Porto Rico?
Enquanto eu treinava, me perguntaram se eu teria interesse de ir para a primeira divisão de Porto Rico. Falei que sim sem duvidar, mas não achei que aconteceria nada mais depois disso. Naquele mesmo dia, recebo uma ligação da pessoa que tinha me perguntado falando que tinha um time de Porto Rico interessado em mim. Me explicou a oferta do time e se eu queria ir.
E, então, tudo mudou.
Falei que sim imediatamente e uma hora depois o presidente do FC Ponce me liga e me explica tudo, falou que eu teria que chegar antes da segunda-feira para a pré-temporada. Tudo isso foi na quarta. Me mandaram a documentação e já na sexta eu estava no aeroporto. Não conhecia absolutamente nada de Porto Rico. Eu aceitei a oferta porque o time tinha o objetivo de ganhar a liga para jogar a CONCACAF Champions Cup, a Libertadores deles. Achei interessantíssimo. Era a oportunidade para poder mostrar meu futebol em uma primeira divisão.
O presidente do clube, que também é argentino, o buscou pessoalmente no aeroporto. Desde então, foi o início de uma nova fase da carreira de Victor Chayo.
Como é o futebol em Porto Rico
Atualmente no Taurinos de Cayey, Chayo acompanha o crescimento da liga local.
O futebol porto-riquenho está crescendo muito e muito rápido. Cada vez mais tem jogadores estrangeiros nos times, o que acaba fortalecendo a liga. Também como Porto Rico é território dos Estados Unidos, todo jogador com passaporte dos Estados Unidos pode atuar aqui sem ter que ocupar uma vaga de estrangeiro. Tem um time que metade do elenco são os titulares da seleção, então eles quase sempre dominam a liga. Depois tem outros times em que todo o elenco são de jogadores estrangeiros. E, finalmente, tem times em que são todos porto-riquenhos que trabalham durante o dia em outras profissões. É um campeonato onde chegam muitos estrangeiros para ter minutos, mostrar seu futebol por uma temporada e logo vão embora para outras ligas.

E uma curiosidade chama bastante a atenção. Embora tenha a sua divisão profissional, a estrutura da base do futebol porto-riquenho é bem distinta do que conhecemos. Diferentemente do Brasil, por exemplo, onde há forte investimento nas categorias de base, na terra de Bad Bunny, onde o beisebol é o esporte número 1 da população, a estrutura é diferente.
Os clubes todos funcionam com um sistema onde tudo abaixo do primeiro time funciona com matrícula. É de lá que a maioria dos clubes obtém boa parte da sua renda.
O contraste cultural aparece principalmente na relação do país com o esporte. De acordo com o Comitê Olímpico de Porto Rico, o beisebol é historicamente o esporte mais popular da ilha, seguido por basquete e vôlei — cenário bem diferente do Brasil.
Com certeza é um pouco estranho. Pouca gente assiste futebol aqui. Quando eu falo para as pessoas que sou jogador de futebol, elas acham que eu estou jogando no time da universidade. E até um pouco frustrante as vezes, as pessoas não entendem que isso é meu trabalho e não um hobby. Onde na maioria do mundo ser jogador de futebol profissional é algo respeitado e que muitos querem ser, aqui, por não ser o esporte principal, eles não entendem.
Vida na ilha do fenômeno Bad Bunny

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Fora de campo, a adaptação foi rápida graças ao idioma espanhol e à semelhança cultural com países latino-americanos. Apesar de constatar uma inevitável influência dos Estados Unidos (Porto Rico pertenceu à Espanha por quase quatro séculos e passou a ser território dos estadunidenses desde o fim do século XIX), a identidade latina permanece forte — especialmente na música.
A vida aqui é muito boa. As pessoas são alegres, o clima é bom sempre, praia. Não posso reclamar. Agora que estou aqui há mais tempo, eu percebo que a cultura está muito misturada com os Estados Unidos. Até quando falam espanhol, de vez em quando jogam palavras em inglês. E a maioria das pessoas falam sobre e assistem aos esportes dos Estados Unidos. Tirando essa parte americanizada da cultura, é muito parecido com o Brasil. Eles são alegres, gostam de festa, música, até tem festas tipo carnaval, onde tudo mundo vai pra rua. A ilha também é muito bonita.
E, óbvio: como falar de Porto Rico e não falar de Bad Bunny?
Nenhum elemento cultural do país é tão forte quanto a música porto-riquenha — sobretudo hoje em dia, representado pelo fenômeno global que é o cantor, filho mais famoso da ilha. Bad Bunny que, inclusive também se apresentou no Brasil após o histórico show do intervalo no último Super Bowl, em fevereiro, leva mundo afora sua sonoridade inconfundível com forte base no reggaeton e trap latino, carregada de elementos de bachata, salsa e bolero, ritmos também tão característicos da cultura sul-americana e caribenha.
100%: ele é o maior ídolo daqui. Ele seria o Pelé de Porto Rico. É impossível passar um dia aqui sem escutar alguma música dele tocando. Aqui, os artistas são os ídolos e inspiração, são as caras que representam Porto Rico. De Porto Rico saem quase todos os cantores de reggaeton. Eu vi pessoas chorando de emoção vendo o show do Bad Bunny no Super Bowl.
Sonhar continua sendo o plano

Ser o único brasileiro na liga não pesa negativamente. Aliás, pelo contrário. A latinidade que corre em seu sangue faz Victor Chayo se sentir um pouquinho em casa no Caribe e criar laços. Inclusive afetivos.
Eu me sinto muito orgulhoso de ser o único brasileiro jogando aqui. Não me sinto sozinho porque eu acostumei a me mudar bastante, e como espanhol é o idioma que eu falo com a minha família, é fácil conversar com tudo mundo. Me sinto confortável. Sim, gostaria de falar melhor português e sinto saudades do Brasil. Mas não significa que eu não goste de estar aqui. Eu vim sozinho, mas conheci a minha namorada porto-riquenha e já moro com ela aqui.
O amanhã, porém, aponta novos desafios. Aos 21 anos, Victor Chayo fala do futuro com maturidade incomum para quem ainda está no início da carreira. Depois de atravessar países, culturas e obstáculos, seus objetivos permanecem claros: crescer, competir e voltar aos grandes palcos do futebol sul-americano. Entre seus maiores sonhos estão disputar uma Série A e jogar uma Libertadores.
O meu objetivo agora é continuar crescendo e melhorando. Quero ir para ligas cada vez mais difíceis e de mais alto nível. Melhorar a cada dia e estar em um ambiente que me desafie. Eu digo que tenho 100% de vontade de jogar no Brasil e também na Argentina, e tenho certeza que na minha carreira eu vou jogar em ambos. Quero voltar para o Brasil em um futuro não muito distante. Mas não sou contra continuar jogando fora do país para continuar crescendo. Considero que Porto Rico me ajudou muito, mas já é hora de seguir o meu caminho em outras ligas, e acho que depois dessa temporada vou em busca de continuar crescendo fora daqui. Um dos meus maiores sonhos é jogar no Brasileirão. Outro é jogar a Libertadores
Assim, enquanto Porto Rico dança ao som de seus ídolos e o futebol ainda busca protagonismo na ilha, Victor Chayo, o único brasileiro a se aventurar e tocar a vida no campeonato local, segue escrevendo silenciosamente sua própria história. Jornada trilhada por desvios inesperados e uma carreira construída longe dos holofotes, mas movida pela mesma força que empurra tantos jovens jogadores pelo mundo: continuar sonhando, mesmo quando o caminho passa pelos lugares mais improváveis do mapa do futebol.
E a convicção de que sonhar, no futebol ou na vida, ainda é o primeiro passo para chegar mais longe:
Sempre sonhei muito e continuo sonhando. Eu acredito que a base de conseguir qualquer coisa na vida é nunca deixar de sonhar. Todos temos sonhos, e para mim eles são projeções do que a gente pode chegar a ser. Está em cada um ir atrás e não deixar que ninguém roube o seu sonho.
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