Do interior de Goiás ao futebol onde carne de cavalo é prato principal: Alan Dias e os caminhos pouco óbvios da bola
Formado nas categorias de base de Goiás e Inter, o zagueiro Alan Dias construiu uma carreira que foge do roteiro tradicional do jogador brasileiro no futebol europeu. Em vez de seguir para ligas mais midiáticas, o defensor apostou em destinos pouco comuns — e hoje carrega no currículo passagens por Bulgária, Azerbaijão e, mais recentemente, Cazaquistão.
São países que raramente entram no radar do torcedor brasileiro, mas que fazem parte de um mercado cada vez mais explorado por atletas em busca de espaço, estabilidade e experiência internacional. No caso de Alan, a escolha se transformou também em vivência cultural intensa, marcada por diferenças de idioma, clima, religião e até alimentação.
“Eu acho que tudo é muito interessante, por ser um país praticamente asiático, a comida é bastante diferente e a cultura também, por aqui ser um país que tem bastante muçulmanos, por exemplo”, contou o zagueiro, ao falar sobre o dia a dia longe da sua terra natal. “O clima no começo foi bastante complicado, neva muito por aqui. Mas a gente vai acostumando, aqui tem uma vida bastante tranquila, bem mais seguro que no Brasil”, disse após sua passagem recente pelo Ordabasy, do Cazaquistão.
Sair do interior de Goiás e jogar em alguns países que eu nunca imaginava sequer conhecer, do outro lado do mundo, morar na Bulgária, Azerbaijão e, agora, no Cazaquistão. Conhecer vários países, várias culturas, isso acho que é uma experiência incrível.

Zagueiro Alan Dias e as impressões do Leste Europeu: futebol intenso e choque cultural
Dentro de campo, Alan descreve o futebol praticado no Azerbaijão e no Cazaquistão como competitivo e fisicamente exigente. Segundo ele, que defendeu Sumqayit-AZE e Ordabasy-CAZ, são ligas de nível semelhante entre si, mas com características distintas em relação ao futebol brasileiro.
“Eu achei que são duas ligas bastante parecidas, praticamente do mesmo nível, vários times bons, um futebol muito intenso. Acho que me impressionou bastante pelo nível ser bastante alto”, explicou. “Acho que o que diferencia é a intensidade, aqui é um futebol muito intenso e no Brasil acho que é mais cadenciado”.
Fora das quatro linhas, no entanto, as diferenças são ainda mais evidentes. A adaptação passa por fatores simples do cotidiano — como comunicação e alimentação — que exigem flexibilidade do atleta brasileiro. Aliás, que tal um bife de carne de cavalo? O zagueiro chegou a experimentar o prato típico, mas admite que não se adaptou.
Acho que uma das coisas curiosas daqui é a comida, aqui come muita carne de cavalo. Quando cheguei, achei bastante estranho, eles não comem nada de porco também. Eu provei, foi bem estranho. Tem um gosto muito forte, não gosto não (risos). É uma carne mais dura. Então, no Cazaquistão eu só comia frango

Do interior ao outro lado do mundo
Natural de Quirinópolis, no interior goiano, Alan iniciou no futsal do colégio e em escolinhas da cidade antes de ser selecionado em uma peneira do Goiás. A mudança precoce para Goiânia, aliás, trouxe desafios comuns a muitos jovens que deixam cidades pequenas para tentar a carreira no futebol.
“Eu comecei com uns 8 anos de idade na minha cidade mesmo, onde nasci. Então, eu sempre corri atrás, mesmo sendo criança e querendo só brincar, mas eu já treinava bastante. Treinei em quatro escolinhas e no final de 2012 olheiros do Goiás fizeram uma peneira por lá, e acabei sendo escolhido. Foi onde tudo começou”, conta.
“Saí do interior de Goiás, né? De Quirinópolis, uma cidade pequena, meus pais não tinham uma condição financeira boa, então foi bastante complicado”, relembra. “Não é fácil sair de uma cidade assim e ir pra capital, ir pra um time grande, mas sempre confiamos muito em Deus, e graças a ele, ele me deu uma oportunidade e eu aproveitei. Minha família sempre acreditou em mim e fizeram de tudo para que eu conseguisse realizar o meu sonho”.
A base sólida construída no Esmeraldino abriu portas no Brasil e, posteriormente, no exterior. Ao longo da carreira, Alan dividiu vestiário com nomes conhecidos do futebol nacional, como Tadeu (ídolo do Goiás), Michael (hoje no Flamengo), Marlone (ex-Vasco, Cruzeiro, Corinthians), Rafael Vaz (ex-Vasco e Flamengo), Giovanni Augusto (ex-Atlético-MG, Corinthians, Vitória, e atualmente na Chapecoense), Bruno Fuchs (hoje no Palmeiras), Carlos Miguel (também do Palmeiras), Negueba (ex-Fla, São Paulo e Grêmio) e Marquinhos Gabriel (ex-Inter, Bahia, Cruzeiro, Santos, Corinthians, hoje no Vila Nova-GO).






Reconhecimento ao zagueiro Alan Dias em sua terra natal
Depois de deixar o Verdão Goiano, em 2019, Dias vestiu as camisas de Botafogo-SP, Brasil de Pelotas e Criciúma. A primeira parada no futebol europeu, então, foi no Lokomotiv Sofia, da Bulgária, onde atuou nas temporadas 2022/23 e 2023/24. Em seguida, um ano no Sumqayit, do Azerbaijão, e, em agosto, desembarcou no Ordabasy, onde foi vice-campeão da Copa do Cazaquistão.
Mesmo atuando no Leste Europeu, a milhares de quilômetros de distância, Alan segue sendo motivo de orgulho em sua cidade natal. Recentemente, no início de dezembro, o zagueiro foi homenageado com uma Moção de Aplausos na Câmara Municipal de Quirinópolis, em reconhecimento à sua trajetória no futebol.

“Reconhecer quem leva o nome de Quirinópolis com orgulho é também valorizar nossa cidade”, escreveu o vereador Nubyano do Nascimento Pereira, o Nubyano Esportes, do União Brasil, na justificativa da homenagem.
O gesto simboliza o impacto que trajetórias como a de Alan exercem fora dos grandes centros: o garoto que saiu do interior, venceu etapas importantes e hoje representa sua cidade no cenário internacional.
Sonhos seguem vivos
Apesar de construir uma carreira já marcada por experiências fora do comum, o zagueiro Alan Dias ainda mantém objetivos ambiciosos. Entre eles, conquistar títulos, disputar uma Champions League e, quem sabe, atuar em uma das grandes ligas europeias.
“Eu sou muito feliz e muito grato a Deus pela minha trajetória no futebol, de estar vivendo meu sonho de criança, jogar na Europa. Agora, meus sonhos são conquistar títulos, jogar uma Champions League, e seguir evoluindo cada vez mais para tentar chegar num das ligas top aqui da Europa, ou também voltar para um clube grande do Brasil”, afirmou.
“Já na vida pessoal, é dar mais conforto para minha família. Quando eu aposentar, ter uma vida tranquila. Eu estou do outro lado do mundo e minha motivação sempre foi essa“.
Enquanto constrói uma carreira longe do roteiro tradicional do jogador brasileiro na Europa, Alan Dias segue levando consigo as raízes do interior de Goiás, sem jamais perder de vista suas origens, a curiosidade de quem desbrava novos mundos e o mesmo sonho de criança que o tirou de Quirinópolis e o colocou, bola no pé, do outro lado do mapa.

