Proibição entrou em vigor nesta temporada, mas casas de apostas ainda podem aparecer em outras propriedades (Foto: Divulgação/Premier League)
Futebol Internacional

Premier League proibe patrocínios de bets na frente das camisas

A temporada 2026/27 da Premier League marca uma mudança importante na relação entre futebol inglês e o patrocínio de casas de apostas, as chamadas bets. Pela primeira vez em mais de duas décadas, nenhum dos 20 clubes da primeira divisão inglesa terá uma empresa de apostas esportivas como patrocinadora na parte frontal da camisa de jogo. A medida, aprovada pelos próprios clubes em 2023, encerra um modelo que se tornou uma das marcas comerciais de competições de futebol mundo afora nos últimos anos, mas, no caso da Inglaterra, não significa o desaparecimento das bets do futebol local.

A decisão foi anunciada pela Premier League em abril de 2023, quando, então, os clubes concordaram coletivamente em retirar os patrocínios de empresas de apostas da frente dos uniformes. Naquele momento, a liga estabeleceu um período de transição de três temporadas para que os contratos existentes pudessem ser encerrados. O prazo terminou ao final da temporada 2025/26 e a nova regra passou a valer nesta edição.

A mudança ganha dimensão quando se observa o tamanho que esse mercado havia alcançado na Inglaterra. Na temporada passada, 11 clubes carregavam marcas de apostas na frente das camisas, o equivalente a 55% dos participantes da Premier League. Para a nova temporada, portanto, o número caiu a zero.

Por que a Premier League decidiu retirar o patrocínio das bets das camisas?

Premier League proíbe patrocínio master de bets na camisa; Chelsea é um dos três clubes que iniciaram a temporada 226/2027 sem parceiro na parte frontal do uniforme
Chelsea inicia a temporada 226/27 sem patrocínio master na camisa (Foto: Divulgação/Chelsea FC)

A decisão faz parte de uma tentativa de reduzir a exposição das marcas de apostas no futebol. Ao mesmo tempo, os clubes precisaram encontrar novas empresas dispostas a ocupar um dos espaços publicitários mais valiosos do esporte.

A mudança também alterou o perfil dos patrocinadores. Empresas dos setores financeiro e de tecnologia ganharam espaço e passaram a ocupar posições que, durante anos, foram dominadas pelas casas de apostas. Para a temporada 2026/27, serviços financeiros aparecem como a principal categoria entre os patrocinadores frontais, enquanto tecnologia, software, companhias aéreas e turismo também ganharam protagonismo.

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O movimento tem impacto financeiro principalmente sobre os clubes que não fazem parte do grupo das maiores potências comerciais da Inglaterra. Antes da mudança, as empresas de apostas tinham capacidade para oferecer valores elevados justamente porque buscavam a enorme exposição internacional proporcionada pelo alto escalão do futebol inglês. Estimativas publicadas antes da implementação da medida apontavam para perdas que poderiam chegar a dezenas de milhões de libras no mercado de patrocínio.

Nesse cenário, a substituição das bets por empresas de outros segmentos não representa apenas uma troca de logotipo na Premier League. É também uma transformação no mercado de propriedades comerciais dos clubes.

Bets ainda estão presentes no futebol inglês

Apesar de proibidas na parte frontal das camisas (patrocínio master), a nova regra não representa uma proibição geral para os anúncios de empresas de apostas na Premier League.

As casas de apostas continuam autorizadas a ocupar outros espaços comerciais, como, por exemplo, mangas dos uniformes e materiais de treinamento. Além disso, as bets mantém acordos comerciais e ações publicitárias relacionadas aos clubes. Por isso, a presença delas continuará sendo percebida nos estádios e nas transmissões dos jogos da Premier League.

O Manchester United é um dos principais exemplos dessa adaptação. O clube não terá uma bet como patrocinadora principal da camisa, mas fechou com a Betway um acordo para o uniforme de treinamento estimado em £ 20 milhões por temporada. Ou seja, a marca continua associada ao clube, mas em uma propriedade diferente.

Levantamentos recentes apontam, inclusive, que a maioria dos clubes da Premier League ainda mantém algum tipo de relação comercial com empresas do setor de bets. A diferença, porém, é que essas marcas deixaram de ocupar o espaço de maior destaque: o peito da camisa utilizada nas partidas.

O tema também ganhou força no futebol brasileiro nos últimos anos, à medida que a presença das plataformas de apostas no futebol passou a provocar debates sobre publicidade, responsabilidade e proteção dos torcedores. Conforme mostra matéria publicada no Vai Pro Gol no começo de agosto, jogadores foram à Justiça e conseguiram liminares contra bets por uso de imagem, em uma discussão que mostra como a relação entre atletas, clubes, publicidade e empresas de apostas ultrapassa as quatro linhas.

Sem as bets, como ficaram os patrocinadores dos clubes da Premier League

Com a saída das bets da frente das camisas, os clubes da Premier League precisaram buscar novos parceiros. Alguns encontraram empresas de tecnologia, outros recorreram a companhias financeiras, aéreas, de turismo ou bebidas.

Entre os principais acordos de patrocínio da temporada 2026/27 estão:

  • Emirates (companhia aérea) no Arsenal
  • Visit Rwanda (turismo estatal de Ruanda) no Aston Villa
  • Vitality (seguros) no Bournemouth
  • Indeed (recrutamento online) no Brentford
  • American Express (setor financeiro) no Brighton
  • Monzo (setor financeiro) no Coventry City
  • Temporal (tecnologia) no Crystal Palace
  • CMC (setor financeiro) Markets no Everton
  • ClickHouse (tecnologia) no Fulham
  • Corendon Airlines (companhia aérea) no Hull City
  • Halo (tecnologia) no Ipswich Town
  • Red Bull (bebidas energéticas) no Leeds United
  • Standard Chartered (setor financeiro) no Liverpool
  • Etihad Airways (companhia aérea) no Manchester City
  • Snapdragon (tecnologia) no Manchester United
  • Knox Hydrate (bebidas energéticas) no Newcastle
  • AIA (setor financeiro) no Tottenham

Chelsea, Nottingham Forest e Sunderland, entretanto, iniciaram a temporada sem patrocinador master na camisa.

A mudança, contudo, vai muito além da aparência dos uniformes e a Premier League passa a experimentar um novo cenário comercial. Sendo assim, fintechs, empresas de tecnologia, inteligência artificial, companhias aéreas e marcas de consumo tentam ocupar o espaço que durante anos foi dominado pelas bets.

E existe ainda uma contradição evidente: embora as casas de apostas tenham desaparecido da frente das camisas, elas continuam presentes em outras áreas do futebol inglês. A nova temporada representa, assim, o fim de uma era visual nos uniformes, mas não necessariamente o fim da relação entre Premier League e bets.

Além da questão comercial, existe também uma preocupação relacionada ao impacto das apostas sobre quem acompanha o futebol. Para entender melhor esse problema, vale conferir o conteúdo “Vício em apostas online: psicólogo explica sinais, vício cruzado e onde buscar ajuda“, também publicado no Vai Pro Gol.