Ele perdeu o pai para a Al Qaeda, o irmão para o Estado Islâmico e fez história na Copa: quem é Aymen Hussein
Aos 38 minutos do primeiro tempo, Aymen Hussein se antecipou à marcação, subiu mais alto que a defesa da Noruega e cabeceou para o fundo das redes. O Iraque comemorava seu primeiro gol em uma Copa do Mundo desde 1986, encerrando um silêncio de 40 anos na principal competição do futebol mundial.
Pouco importava que a partida ainda estivesse longe do fim. Muito menos que a Noruega retomasse a vantagem minutos depois ou que, já nos acréscimos, um desvio no próprio Hussein ajudasse a fechar a derrota iraquiana por 4 a 1. Essa noite, aliás, jamais seria lembrada apenas pelo placar.
Para entender o significado desse gol, é preciso voltar muitos anos no tempo, a um país onde crescer significava aprender a conviver com a guerra.
A infância de Aymen Hussein em meio aos conflitos
A história de Aymen Hussein começa em um Iraque marcado pela violência e pela instabilidade política. Como milhões de crianças iraquianas, ele cresceu em um ambiente onde o futuro parecia incerto e onde o futebol, muitas vezes, representava mais do que um esporte. Era um refúgio.
Mas a guerra não ficou do lado de fora de casa.
Em 2008, seu pai, que servia às forças militares iraquianas, foi assassinado em um ataque da Al Qaeda. Anos mais tarde, a família sofreu outra perda devastadora: o irmão mais velho do atacante foi sequestrado pelo Estado Islâmico e nunca mais foi encontrado. Pouco depois, os confrontos na região de Kirkuk destruíram a casa onde viviam.
O futebol poderia ter deixado de fazer sentido diante de tantas tragédias. Aymen Hussein escolheu o caminho contrário. Transformou a dor em combustível e encontrou no esporte uma maneira de seguir em frente.
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A promessa de Aymen Hussein ao povo iraquiano
Apesar de tantas dores, com o passar dos anos, o centroavante se tornou uma das principais referências técnicas da seleção iraquiana. Alto, forte e decisivo dentro da área, passou a acumular gols e a carregar as expectativas de um país que sonhava em voltar ao cenário internacional.
Em uma entrevista concedida em 2017, fez uma promessa que parecia ousada demais para a realidade do futebol iraquiano. Disse que não descansaria até levar sua seleção de volta à Copa do Mundo.
O desafio era enorme. O Iraque havia disputado apenas um Mundial, em 1986, no México, e desde então acumulava eliminações. Uma geração inteira cresceu sem ver a seleção nacional participar do maior torneio do planeta.
Aymen Hussein decidiu que isso precisava mudar.
O gol que levou o Iraque de volta à Copa
Na repescagem intercontinental contra a Bolívia, o atacante escreveu um dos capítulos mais importantes da história recente do futebol iraquiano.
Foi dele o gol da vitória por 2 a 1 que garantiu a classificação do Iraque para a Copa do Mundo de 2026. A festa tomou conta do país e transformou Hussein em herói nacional. A promessa feita anos antes estava cumprida.
Seus gols já o colocavam entre os maiores artilheiros da história da seleção, mas aquele tinha um significado diferente. Não representava apenas uma vitória esportiva, senão a volta de um povo ao palco mais importante do futebol.
O interrogatório que marcou a chegada aos Estados Unidos
A jornada até a Copa, no entanto, ainda reservaria mais um obstáculo.
Ao desembarcar em Chicago com a delegação iraquiana, Aymen Hussein foi separado do restante do grupo e submetido a um rigoroso processo de imigração. Algo, aliás, que tem manchado a imagem do governo dos Estados Unidos durante a organização deste Mundial. O atacante permaneceu cerca de sete horas sob interrogatório das autoridades americanas e teve o celular analisado antes de receber autorização para entrar no país.
O episódio ganhou repercussão internacional e levou o jogador a resumir sua trajetória em uma frase curta, mas carregada de significado. A declaração não falava apenas sobre aquele aeroporto, mas sobre uma vida inteira.
Esta não é a primeira história de terrorismo da minha família. Provavelmente não será a última.
O gol histórico de Aymen Hussein na Copa do Mundo
Dias depois, chegou a estreia do Iraque na Copa do Mundo.
Do outro lado estava a Noruega de Erling Haaland. Dentro de campo, Hussein voltou a ocupar o papel que desempenhou durante toda a campanha das Eliminatórias: o de protagonista.
Aos 38 minutos do primeiro tempo, apareceu na área para marcar de cabeça e fazer o primeiro gol do Iraque em um Mundial desde o retorno da seleção ao torneio, quarenta anos depois de sua única participação anterior.
O futebol, porém, costuma ser imprevisível. A Noruega retomou a vantagem e construiu a vitória. Já nos acréscimos, uma bola desviou no próprio atacante antes de entrar no gol iraquiano, fechando o placar em 4 a 1.
Talvez não exista resumo melhor para a própria trajetória de Aymen Hussein. Houve momentos de alegria e de sofrimento, de celebração e de dor, de conquistas históricas e de perdas irreparáveis. Ainda assim, em nenhum deles ele deixou de seguir em frente.
Aymen Hussein e a partida que o placar não consegue explicar
O futebol costuma transformar heróis em estatísticas: gols, títulos, assistências e troféus ajudam a organizar a memória coletiva de cada geração. A trajetória de Aymen Hussein, no entanto, parece escapar dessa lógica.
O menino que perdeu o pai para a Al Qaeda, viu o irmão desaparecer após um sequestro do Estado Islâmico e teve a casa destruída pela guerra encontrou no futebol um abrigo. Fez uma promessa ao seu povo e a cumpriu ao levar o seu povo de volta à Copa do Mundo depois de quatro décadas.
Aymen Hussein não conseguiu evitar a derrota do Iraque, mas isso pouco importa.
O resultado daquela noite pertence às estatísticas. E o futebol, às vezes, escreve histórias que o placar jamais conseguirá descrever.
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