Entre o Pará e o Iraque, a longa viagem de Neto Acará e um sonho com as cores do Paysandu
Há uma certa ironia no nome. Neto Acará carrega no próprio futebol o lugar de onde saiu. Acará, município do interior do Pará, aparece no documento, na história e, sobretudo, na memória. Aos 27 anos, o atacante já passou por diferentes regiões do Brasil, rompeu as divisas do país pela primeira vez rumo à Bolívia e, depois, chegou ao Oriente Médio. Ainda assim, quando fala sobre futuro, o destino que lhe aparece com mais força não é nenhum dos países por onde passou. É Belém. É o Paysandu.
Neto Acará, hoje atacante do Newroz, do Iraque, tem uma resposta pronta para quem estranha a escolha. Quando alguém pergunta se ele não tem medo, o paraense de 27 anos não hesita: “É um lugar maravilhoso e eu estou gostando muito de estar aqui.”
Os amigos no Brasil repetem sempre a mesma pergunta: o que você foi fazer no Iraque? Ele responde que a realidade é bem diferente da imagem que o noticiário construiu. Mas, para entender como um garoto do interior do Pará foi parar no futebol iraquiano, é preciso voltar muito no tempo.

O menino que carregava bandeja
Antes de virar jogador, Neto, ou melhor, José Vitor Trindade Neto, foi o menino da bola na rua. Nas quadras e nos campos do município de Acará, jogava futebol e futsal sem camisa, faça chuva ou faça sol, desde que se entende por gente. A bola sempre esteve com ele.
Ao mesmo tempo, a vida era dura. Aos 13 anos, ele teve que arrumar emprego: serviço em um lava-jato, depois em um supermercado… Aos 15, virou garçom num bar da cidade. Naquele momento, o futebol ainda era um sonho, mas um sonho que precisava disputar espaço com as responsabilidades de quem crescia sem luxos ou privilégios no interior.
Ele não fala dessa época com mágoa. Pelo contrário: “Na minha infância, graças a Deus, nunca me faltou nada. Nunca tive o que eu queria também, nunca tive nada exagerado na minha vida, mas também nunca me faltou nada. Graças a Deus, graças ao meu pai, que sempre fez de tudo pra mim e pros meus irmãos“. Ainda assim, admite que a infância foi difícil.
Aos 18, decidiu fazer aquilo que poderia parecer um risco grande demais: abriu mão do emprego para tentar ser jogador.
Uma última chance e uma chuteira emprestada
Maior de idade, então, Neto deixou o emprego que tinha e apostou no sonho de ser profissional. Fez um teste no Atlético-GO, mas não passou. Voltou para a cidade, desanimado, e recomeçou a procurar emprego para se manter.
Então o telefone tocou. Do outro lado da linha, o tio perguntava se ele realmente queria aquilo e se toparia tentar mais uma vez. Neto aceitou, com uma condição para si mesmo: se não desse certo, “ia voltar pra minha vida normal no interior”, conta.
O tio conseguiu, com um amigo diretor das categorias de base do Paysandu, um mês de avaliação. Faltava o básico. “Emprestei uma chuteira de um primo, fui fazer teste, não tinha onde ficar na capital, não tinha nada”, lembra. Ele ia passando de endereço em endereço, ora na casa de um amigo, ora na casa de um familiar: “Não tinha onde ficar na capital, não tinha nada. Eu ia ficando na casa de um amigo, na casa de uma tia, ia mudando de endereço. Durante um, dois meses, foi dessa forma que eu ia ficando em Belém para poder conseguir fazer o teste”.
Enquanto isso, precisava encontrar uma maneira de chegar aos treinos.
“Caminhava cerca de sete, oito, nove quilômetros”

“Não tinha dinheiro para me manter, para ir treinar. Às vezes eu ia caminhando. Caminhava cerca de sete, oito, nove quilômetros para poder chegar onde o ônibus da base passava. Então, esse período foi o período mais complicado. Mas foi onde me abriu a porta, né?”.
Foram meses assim, até a aprovação e, posteriormente, a entrada no alojamento do clube. Por isso, quando fala do Paysandu, a lembrança não se resume ao primeiro clube. É uma relação familiar.
“O Paysandu Sport Club me deu a primeira oportunidade. O clube da minha família, o clube do meu pai, o clube do meu avô. Então, para mim, é um lugar que eu tenho guardado no meu peito e no meu coração.”
Um andarilho da bola
Em 2019, Neto se transferiu para o Bragantino-PA e entrou no elenco profissional que disputou a Copa Verde, embora não tenha estreado. Depois, foi para Goiás, onde estreou de verdade, na primeira divisão estadual. Enfrentou clubes que, um ou dois anos antes, só via pela televisão.
O título que ninguém esperava
Em 2021, muito antes de Neto Acará imaginar que jogaria no Iraque, veio um dos capítulos mais importantes: campeão pelo Grêmio Anápolis.
“Foi um momento espetacular na minha carreira esse título do Campeonato Goiano. Um clube jovem, formado por jogadores com média de idade de 23, 24 anos, com salários baixíssimos, recebendo cerca de um salário mínimo para estar ali. Acredito que o Grêmio Anápolis foi o único time do interior a ser campeão estadual nesse ano no Brasil”.

“A gente conseguiu o feito, eliminando o Atlético-GO, que nessa época jogava Série A, tinha jogadores como o Wellington Rato, como o Marlon Freitas, que está aí sendo campeão da Libertadores, e a gente eliminou eles dentro do Antônio Accioly. Depois, campeão em cima do Vila Nova dentro do OBA. Foi uma grande conquista que vai ser lembrada na minha vida para sempre”.
Na sequência, a vida de quem ainda buscava estabilidade continuou. O futebol paulista abriu portas (Grêmio Prudente, Portuguesa Santista, Votuporanguense, Comercial…), mas também apresentou uma das faces menos visíveis da profissão: a espera.
+ Números da carreira de Neto Acará
Neto chegou a ficar quatro meses desempregado em São Paulo, na casa da sogra, procurando uma nova oportunidade: “Um momento de preocupação pra mim, de incerteza, sem saber se eu teria outra oportunidade de novo. Estava longe de casa, em outro estado… Então, foi um momento também complicado”.
A passagem de um clube para outro, especialmente depois dos estaduais, fazia parte da rotina. Assim, a carreira avançava sem linha reta: uma temporada aqui, outra ali, uma nova cidade, outro vestiário, outra tentativa… A estabilidade não vinha, e os períodos sem contrato pesavam.
“É uma coisa inexplicável”: a Bolívia e a altitude
Em 2024, a trajetória ganhou um novo cenário. Neto Acará aceitou a proposta do San Antonio Bulo Bulo, clube boliviano que tinha acabado de ser campeão nacional e era comandado por um treinador brasileiro, Thiago Leitão. Era a primeira vez que Neto Acará jogava em uma primeira divisão fora do país. Ele apostou. “Fui arriscar, arriscar um novo mercado, primeira vez fora do país em um campeonato de primeira divisão”, diz.
No futebol boliviano, Neto viveu temporadas importantes. Pelo Bulo Bulo, disputou 23 partidas, marcou seis gols e deu seis assistências. No ano seguinte, em 2025, 24 jogos e cinco gols pelo Guabirá.
“Para mim, foi muito importante, porque foi a partir dessa ida para a Bolívia que eu consegui melhorar a minha vida como atleta, os meus números, ter uma estabilidade melhor. Tive uma passagem top pelo Bulo Bulo. Um clube que saiu campeão no final do ano disputando o título nacional contra um gigante do país, que é o Bolívar, que está aí disputando a Libertadores todos os anos, enfrentando equipes brasileiras, e sempre fazendo jogos muito difíceis”, afirma Neto.

“É uma sensação inexplicável jogar na altitude“
A altitude, porém, cobrou o preço. Morando em Cochabamba, a cerca de 2.600 metros, ele precisava subir ainda mais para jogar. “Eu já cansei de ir jogar e passar mal, ter que dormir no oxigênio”, conta. Por isso, o time viajava apenas no dia da partida. Em La Paz e El Alto, a experiência era ainda mais extrema.
“Mesmo morando em Cochabamba, era difícil para a gente subir para jogar em La Paz ou em El Alto, que é onde o Always Ready, o Bolívar ou o The Strongest mandam seus jogos. Mesmo para a gente que vivia e jogava dentro do país era muito difícil. Se você for acompanhar o futebol boliviano, os melhores números são sempre das equipes da altitude maior. Os últimos campeões são da altitude, os últimos artilheiros são jogadores que jogam na altitude, porque realmente tem uma grande vantagem. É uma sensação inexplicável jogar na altitude“.
“Hoje, assistindo jogos de equipes brasileiras, vendo os resultados, vendo a imprensa comentando, realmente as pessoas não têm ideia… Quando a gente ia jogar, a gente ia no dia do jogo, porque você tem dificuldade para dormir, você sente dor de cabeça, dor nos olhos, você passa mal, dá vontade de vomitar, então é muito difícil para você ter que dar 100% jogando nessas condições”, explica Neto.
Mesmo assim, foi justamente a experiência na Bolívia que abriu uma porta para outro continente.
O Iraque que Neto Acará encontrou
Quando surgiu a proposta do Newroz, Neto podia renovar na Bolívia. Optou, porém, por novos desafios e outra cultura. Antes de embarcar para o Iraque, havia receio. Era natural.
Poucos meses depois da chegada, a guerra na região, entre Estados Unidos e Irã, começou. Já no Iraque, Neto Acará viu a preocupação se espalhar entre familiares, seus representantes e amigos. Então manteve contato com os diretores do clube e com a Embaixada do Brasil, atento a qualquer aviso de evacuação. Ainda assim, o campeonato seguiu e os treinos não pararam.
“O Iraque é um lugar que me acolheu da melhor forma possível, a mim e minha esposa. É um lugar que as pessoas tratam a gente super bem. Lógico que toda essa preocupação é válida pelas notícias que a gente vê, mas realmente eu me surpreendi com o país, é um país muito melhor do que eu imaginava“.
Curdistão

A explicação está no mapa. Neto Acará vive no Curdistão Iraquiano, região autônoma no norte do país, que faz divisa com a Turquia e quer se tornar independente. De acordo com ele, “é como se fosse a Catalunha em relação à Espanha”.
“É um povo que gosta de estrangeiro, um povo que gosta de brasileiro, de sul-americano. Porque eles realmente tratam a gente muito bem, sempre com educação, sempre respeitando. E a gente respeitando a religião e os costumes dessas pessoas também. Então, eu só tenho a elogiar aqui”.
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“A região que eu vivo, que é a região do Curdistão, é muito tranquila. Eles têm a questão de política, as ideias, a questão religiosa, que são importantes para eles. Realmente tem esse problema de guerra, mas digamos que não é só no Iraque. Como a gente pode ver nesses últimos meses, é toda a região do Golfo, então, você realmente tem que ficar com o alerta ligado, mas não tive nenhum problema desde que cheguei aqui. Nunca a gente teve nada de anormal. Me surpreendi, realmente. É um lugar maravilhoso e eu estou gostando muito de estar aqui”, completa o atacante brasileiro do Newroz.
Neto Acará: “O Iraque não é da forma que as pessoas acham”
A rotina, portanto, lembra a de qualquer pessoa vivendo o seu dia a dia normalmente: “Vou no restaurante com a minha esposa, temos a nossa rotina de ir pra academia, de ir numa cafeteria, normal. Aqui no Curdistão, as pessoas têm a mente mais aberta, são mais educadas, são mais próximas da nossa realidade. Não são, digamos, tão fechadas, elas não têm o costume tão rígido como na capital Bagdá e outras cidades aqui do Iraque”, pontua.
Neto Acará confessa que também tenta desfazer o senso comum sobre o Iraque: “Gente, não é dessa forma que vocês estão imaginando”, diz aos amigos. “Aqui não é da forma que vocês estão imaginando, que as pessoas se matam entre elas, que todo momento alguém está se explodindo, está se matando, não é assim, entendeu? Eu falo para eles que aqui eu costumo sair à noite e voltar para casa à noite com a minha esposa. Não tem risco nenhum” .
“É mais fácil você ser morto no Brasil por causa de um telefone”
O contraste mais forte vem das conversas que Neto Acará tem com amigos nascidos no Iraque. Ele explica a eles a realidade brasileira e vê a incredulidade no rosto dos novos amigos. “É mais fácil você ser morto no meu país por causa de um telefone, ser assaltado, tomar um tiro na rua”, diz.
“Cada lugar tem sua dificuldade, tem sua forma de viver, de pensar sobre tudo. Todo lugar é perigoso, se você parar para pensar. Mas, realmente, (o Iraque) não é da forma que as pessoas acham que é, senão eu não estaria aqui, é óbvio. É um lugar tranquilo, seguro para mim e para minha família.”
Neto Acará: os gols de quem se sente em casa no Iraque
Dentro de campo, a adaptação veio rapidamente e a resposta se traduz em números. Neto Acará chegou a um clube que brigava contra o rebaixamento e ajudou o Newroz a terminar o campeonato em oitavo. Marcou 8 gols e deu 3 assistências em 19 jogos.

Havia propostas de outros países e de outros clubes iraquianos. Ele ficou. “Renovei meu contrato por mais duas temporadas. Então, se não fosse um lugar realmente tranquilo para viver, eu não teria feito isso”, diz, enfático. E completa: ” Então, eu achei que deveria renovar, deveria continuar em um lugar que eu fui muito bem tratado e que me senti muito bem desde a minha chegada.”
A adaptação, porém, continua.
“É uma cultura realmente muito diferente da nossa. É um povo muçulmano, um pessoal mais discreto, um povo mais tranquilo, que não se expõe tanto. E a gente tem que respeitar o espaço deles, respeitar a sua religião, os seus momentos de orações, os seus momentos de silêncio. A questão da língua, eu acredito que seja a maior barreira. Mesmo a gente se comunicando no inglês, a gente ainda tem um pouco dessa barreira linguística, mas não é um empecilho, entendeu? Mas a questão cultural é bastante diferente, tanto no dia a dia, como dentro do clube também, eles são diferentes da gente. Então, tudo isso é uma coisa que eu ainda estou aprendendo”.
De contrato renovado com o Newroz, portanto, Neto Acará vive agora seu segundo ciclo no futebol iraquiano. O brasileiro soma quatro gols e uma assistência em oito jogos na temporada 2026/27 – aliás, é o artilheiro do time na liga.
O sonho continua em Belém do Pará
A carreira levou Neto Acará para longe. Muito longe. E ele quer seguir fora do país por mais algum tempo, no Iraque ou em outras ligas. Por lá, diz, as condições de trabalho e a estabilidade são melhores.
Mas algumas coisas não mudaram com a distância. Por enquanto, ele reconhece que o momento de voltar ainda não chegou. Um dia, porém, quer vestir a camisa bicolor do clube do pai e do avô.
“Eu assisto aos jogos do Paysandu aqui do Iraque, mesmo tendo seis horas de diferença. O clube que me deu oportunidade, que abriu a porta para mim, que me tirou do interior do Pará para que pudesse viver tudo isso que eu estou vivendo”, revela com entusiasmo.
A primeira porta que se abriu nunca se fechou por dentro dele. O garoto da chuteira emprestada, que cruzou o mundo atrás do futebol, ainda tem o coração voltado para onde tudo começou.
O sonho continua tendo endereço: Belém.
“Tenho um sonho que é jogar no meu clube, o clube que eu comecei, o clube que eu torço, o clube do meu pai e do meu avô, que é o Paysandu. Quem sabe lá na frente esse sonho pode se tornar realidade. Tenho esse desejo de retornar ao clube mais experiente, como um atleta profissional, e de realizar esse sonho do meu pai, da minha família”.


