Agente dispara: “Lei da SAF foi uma pá de cal no futebol brasileiro”
A discussão sobre o modelo de SAF no futebol brasileiro ganha novos contornos à medida que surgem também críticas mais contundentes e estudos mais profundos sobre os casos já implementados no Brasil. Nesse sentido, em entrevista ao podcast Resenha dos Crias, na noite da última terça-feira (8), o agente Marcelo Robalinho, responsável pela Think Ball & Sports Consulting, fez duras declarações sobre o cenário atual, levantando dúvidas sobre sustentabilidade, governança e os riscos do modelo no longo prazo.
Além disso, Robalinho aponta que o entusiasmo inicial com a SAF no Brasil pode estar mascarando problemas estruturais relevantes.
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Agora, a gente está vivendo a era das SAF’s. Hoje, se você fala que o clube é SAF, está todo mundo achando que vai dar certo. Daqui a pouco, eu te garanto, vai ter uma quebradeira de SAF… E vai ser de time grande. O Vasco já está na segunda RJ, o Botafogo deve ir para a segunda RJ. É uma loucura. RJ é uma Recuperação Judicial, que é uma pré-falência. Só que a lei das SAF’s deu um contorno melhor para as associações pedirem recuperação judicial, mas para as empresas, não.
Por outro lado, o agente também critica a entrada de investidores sem experiência no futebol, sobretudo em clubes menores. Dessa forma, ele alerta para promessas que não se concretizam e para a dificuldade de gerar lucro no setor:
Aonde isso vai parar? E esses clubes SAF’s do interior? Que é um monte de aventureiros que estão pegando os clubes. Fazem promessas. Papel aceita tudo. Mas não têm o desempenho esportivo… É muito difícil fazer futebol, quem trabalha honestamente, quem está no mercado, sabe o que eu estou dizendo aqui. É muito difícil fazer futebol com lucratividade.

SAF no futebol brasileiro: casos que acendem o alerta
Diante desse cenário, alguns exemplos ajudam a ilustrar os riscos apontados por Robalinho. O Vasco, por exemplo, viveu uma crise significativa após a parceria com a 777 Partners, marcada por disputas judiciais e incertezas sobre o controle da SAF.
Ao mesmo tempo, o Botafogo vive um cenário complexo desde a implementação do modelo comandado por John Textor. Apesar do sucesso esportivo recente, com títulos do Brasileirão e a inédita Libertadores na história do clube, o Glorioso enfrenta desafios financeiros, societários e jurídicos, com disputas envolvendo o grupo Eagle Football levadas à arbitragem. Além disso, a necessidade de recorrer a empréstimos e buscar novos aportes — incluindo a proposta de injeção de mais de R$ 100 milhões — evidencia a pressão por fluxo de caixa e cumprimento de obrigações imediatas.
Do ponto de vista financeiro, o clube também já utilizou mecanismos previstos na legislação, como o Regime Centralizado de Execuções (RCE), e estruturou processos de renegociação de dívidas que somam centenas de milhões de reais. Assim, o Botafogo vive um momento de reorganização, tentando equilibrar investimento esportivo com ajustes financeiros — contexto que ajuda a explicar, ainda que não necessariamente validar, as críticas ao modelo de SAF no futebol brasileiro.
Nesse contexto, Robalinho foi ainda mais incisivo ao comentar o caso:
Hoje venderam uma solução para os clubes que é o quê? Joga pra debaixo do tapete de uma Recuperação Judicial, uma Centralização de Execução, depois vê como paga. Olha o que o Botafogo fez. É uma vergonha. Ficaram dois anos com uma Centralização de Execuções, não pagaram nada, e depois pediram Recuperação Judicial, que o único credor que aceita é a Odebrecht. Uma dívida que sabe-se lá como foi criada. Então, a permissividade do Judiciário, da CNRD e do órgão da CBF que deveria fiscalizar, estimula o clube a ser mal gerido. Porque no final do dia, não cumpre-se penhora e cava-se mais o buraco.
Para mim, a lei das SAF’s foi uma pá de cal no futebol brasileiro. E nós não vamos colher nesse momento, o problema vai refletir daqui cinco, dez anos. O futebol é um negócio de longo prazo. As pessoas são ansiosas, elas querem ver o resultado amanhã, mas é uma curva. E nós vamos colher o resultado negativo mais pra frente.

SAF x modelos tradicionais no Brasil
Por outro lado, o agente também destaca exemplos de clubes que optaram por reestruturações sem aderir à SAF. Nesse sentido, Flamengo e Palmeiras são citados como referências de gestão responsável e sustentável.
O Palmeiras teve algumas gestões que foram se complicando. Vem um choque de gestão, profissionaliza o time, não deram calote em ninguém, não pediram Recuperação Judicial, sofreram, e esse sofrimento são dois rebaixamentos, anos sem ganhar nada.
O Flamengo igual. Eu acompanhei com o Rodrigo Caetano a dificuldade que o clube tinha de contratar. Imagine que há anos atrás, eu levo o Liedson pro Flamengo com o salário pago pelo Corinthians. O Corinthians pagava o salário pro jogador jogar no Flamengo. E o Flamengo lutou aí por três quatro anos se salvando na última rodada. O Flamengo sofreu muito, porém foi se colocando de pé, pagando a conta, ajustando, melhorando a parte de receitas, procedimentos internos. Mas com austeridade, com gente séria, que sentou na cadeira e resolveu.

Além disso, Robalinho relembra negociações que evidenciam o compromisso financeiro do clube carioca:
Eu me lembro bem. O Flamengo tinha várias dívidas com o meu escritório e eu lembro de negociações com o Rodrigo Caetano, que é um cara muito exigente, que defende muito o clube que ele trabalha, dele me dizer assim: ‘Cara, eu vou parcelar isso em 48 vezes. É como a gente consegue pagar. Mas se atrasar uma (parcela), você pode botar aí no contrato que vence tudo (de uma vez)’. E não atrasava. O Flamengo foi pagando.
O que diz a lei da SAF no Brasil
A Lei nº 14.193/2021, que regula a SAF no Brasil, foi criada para modernizar a gestão dos clubes e atrair investimentos. Em síntese, o modelo permite que associações se transformem em empresas, separando o futebol do clube social e criando mecanismos de reorganização financeira.
Além disso, a legislação prevê instrumentos como o Regime Centralizado de Execuções (RCE) e a possibilidade de recuperação judicial. Dessa maneira, busca-se dar segurança jurídica e incentivar a profissionalização da gestão.
Por outro lado, críticos apontam que esses mecanismos podem ser utilizados para postergar dívidas sem garantias claras de pagamento. Assim, o debate sobre a efetividade da SAF no futebol brasileiro segue aberto, especialmente diante dos primeiros casos práticos.
Mas e o futuro das SAF’s no futebol brasileiro?
Por fim, as declarações de Marcelo Robalinho reforçam um debate cada vez mais presente no país. Enquanto alguns clubes enxergam na SAF uma oportunidade de crescimento, outros já enfrentam dificuldades que colocam o modelo em xeque.
Portanto, o impacto real das SAFs no futebol nacional deve se tornar mais evidente nos próximos anos. Até lá, o tema seguirá dividindo opiniões entre dirigentes, investidores e profissionais do mercado.
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